quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Actéon

«Haverá visão mais louca do que a que se oferece, por entre as folhagens afastadas, aos olhos de Actéon?
Sonhará ele de modo tão intenso em pleno meio-dia, ao som da trompa? Terá sido o acaso ou o tacteante desejo que conduziu os seus passos na via da salvação, para o seio da maldição? Terá ele acreditado verdadeiramente que a virgem, na sua inalcançável divindade, era alcançável? Teria sido ele quem dava a esta teofania as suas formas? Seria ele o exegeta? Ter-se-ia oferecido Artemisa aos escultores, se Actéon não se tivesse aproximado dela? Seria uma cilada da sua imaginação venatória que ele desejava armar ao seu génio tutelar? Mas que ideia querer surpreender o princípio fundador da sua vocação, para o pôr em causa! E será necessário ser-se tão louco para supor que a divindade vai descansar, despir-se e alegrar-se na água? E acreditar que ela se aborrece, e que esse aborrecimento tão raro, que vos proporcionará um divertimento exclusivo e vos encherá de um privilégio que colhereis como uma baga selvagem?
Estaria Actéon farto da caça? Adivinharia um sentido mais profundo da sua inutilidade? Numa palavra: deixar a presa pela sua sombra, não é o segredo de todos os caçadores, pois que os bens terrenos são a sombra dos que hão-de vir? Mas se o Reino pertence aos violentos, Actéon deu o primeiro passo na via da sabedoria quando se aproximou desse arbusto ardente que ele afastou, como o primeiro dos videntes em marcha, armados e mascarados.»

Pierre Klossowski, O Banho de Diana

Episódio de Leonardo e Valor Simbólico do Casamento

Episódio de Leonardo:

A história de Leonardo está contido nas estrofes 75 a 83 no canto IX, episódio da Ilha dos Amores.
Leonardo é caracterizado como um corajoso soldado com espírito alegre que acreditava ter má fortuna no amor.
Neste episódio podemos destacar como personagens Leonardo e Efire, a ninfa que lhe havia sido atribuída sendo a mais "complicada" de alcançar. Quando Eifre nota que Leonardo se apercebe da sua presença, foge. Aqui desenrola-se uma perseguição, onde Leonardo suplica a Efire que pare. A ninfa rejeita os seus pedidos e Leonardo apercebe-se que lhe é impossível não lhe ser cortês, pois Efire é o ser mais belo que alguma vez imaginou ver. Através do seu discurso apaixonada e até desesperado, Efire rende-se tal como as outras ninfas.

"Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor."

Assim Leonardo, através da partilha de intensos momentos com Efire, consegue ultrapassar as desavenças amorosas do passado.
Neste episódio temos claras características do amor sensual, à primeira vista, repleto de desejo que no entanto mais à frente se acaba por transcender e interligar com o amor espiritual. No fim do episódio Leonardo começa a ter desejos de casamento e de companhia eterna, a partilhar com Efire.

Valor Simbólico do Casamento:

Neste episódio vemos que o início das relações entre as ninfas e os marinheiro era puramente físico e sensual onde ambos encantados por desejo se entregavam ao amor intenso. No entanto através do acto sexual, da satisfação e entrega começa a desencadear-se uma passagem do amor sensual para o amor espiritual. Após o acto sexual existe uma transcendência, pois a supra-entidade presente, O Amor, domina o coração dos marinheiros elevando os seus espíritos e interligando o sensual com o espiritual.
Neste episódio podemos concluir então que existe um redimensionamento do amor sendo que passa para além do sensual e espiritual chegando ao Mítico.
O casamento aparece neste episódio como uma parte integrante da dimensão mítica do amor e ainda como um objectivo dos marinheiros.
No episódio de Leonardo os verdadeiros vencedores são Leonardo e a entidade do Amor.

Andreia Rosa nº2 12ºE

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Relação entre a descrição da Ilha dos Amores e a descrição da Idade do Ouro

Até que ponto é que a descrição da Ilha dos Amores se avizinha/é contaminada pela descrição da Idade de Ouro contida no texto de Ovídio?

Nos cantos IX/X d'Os Lusíadas, é feita a descrição da Ilha dos Amores. Nestes cantos, é relatada a vontade da deusa Vénus em premiar os heróis lusitanos, com um merecido descanso e com prazeres divinos, numa ilha paradisíaca, no meio do oceano, a Ilha dos Amores. Nessa ilha maravilhosa, os marinheiros portugueses podiam encontrar todas as delícias da Natureza e as sedutoras Nereidas, divindades das águas, irmãs de Tétis, com quem se podiam alegrar em jogos amorosos.

Esta descrição que é feita da Ilha dos Amores pode ser relacionada com a descrição da Idade de Ouro da seguinte maneira:

Ora, uma Idade de Ouro é uma época em que um específico povo está no seu auge - no caso dos Portugueses, este foi o tempo áureo dos Descobrimentos. Segundo Ovídio, a Idade de Ouro era isso mesmo -  uma época de imensa glória.

Podemos também relacionar as duas descrições pelo facto de ambas serem utópicas ou pelo menos ideais num ponto de vista actual - Todos vivem em paz e harmonia, não há perigos, apenas glória e perfeição para quem a viveu.

Episódio de Leonardo | Valor Simbólico do Casamento



Episódio de Leonardo

Neste episódio dos Lusíadas, que decorre das estrofes 75-84 do Canto IX, Leonardo, um soldado, é descrito como bem disposto, mas como não sendo afortunado no que tocava ao amor. Porém, a estrofe 75 indica-nos também que a sua sorte poderia vir a mudar.

“Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele maltratado,
E tinha já por firme pressuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De ainda poder seu fado ter mudança.”

Numa primeira análise, podemos observar Leonardo como uma típica descrição de um “eterno apaixonado”. Mesmo que o amor lhe tenha trazido tantas desventuras, Leonardo continua determinado e perseverante. Neste episódio, Leonardo persegue a ninfa Efire, e vendo que o seu fado habitual se repetiria, Leonardo implora a Efire que pare e se renda, tal como as restantes ninfas. 

“Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo.”
 
Leonardo ainda apela a Efire, mostrando se verdadeiramente desesperado, e tenta fazer com que Éfire pense que “a ela não lhe custaria nada e só seria bom para ele”

“O que tu só farás não me fugindo!”

Efire acaba por ter alguma “pena” do desgraçado, após este ter debitado toda as suas desventuras amorosas, e acaba por se render. 

“Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.”

Este episódio só nos demonstra que mesmo quando algo corre mal, há que ser perseverante e determinado e continuar a insistir, sem desistir, até ao ponto em que já não conseguimos mais. Pois mesmo quando é hábito algo correr-nos mal, existe sempre a esperança de que desta vez possa correr bem.


Valor Simbólico do Casamento

Vivemos num país cristão e católico. É verdade que já o fomos mais, e que cada vez isto se torna algo secundário, pois grande parte dos jovens de hoje em dia ou são ateus com fundamentos, ou não ligam de todo a nada, mas ainda existem alguns que por esta religião se regem.
A verdade é que o casamento – não só em Portugal, como também no mundo – já não é o que era.  Ouvimos histórias dos nossos avós, que no Antigo Regime se conheceram, se encontravam às escondidas, e contra tudo e todos lá se casavam e ainda hoje casados continuam. Não quer dizer que connosco não seja possível, mas na sociedade actual o casamento é muito mais um contracto do que um sagrado laço contraído entre duas pessoas. Cada vez mais se dá importância ao casamento pelo registo civil sem uma cerimónia religiosa – não se pode culpar ninguém, todos sabemos que tais cerimónias são algo aborrecidas e a parte divertida só começa quando vamos comer. E como cada vez mais se olha para o casamento como um contracto, cada vez é mais fácil “rasgá-lo”.
Quase um em cada dois casamentos em Portugal acaba em divórcio – a média duração deste contracto é de 10-14 anos. Não nos parecendo um número assim tão mau, esquecemo-nos que segundo os costumes religiosos deste país, o pressuposto é que o casamento dure até ao fim da vida de uma ou de ambas as partes. Já não havendo muitas pessoas a casar, cada vez isto piora mais. Numa instituição que deveria demonstrar a união completa entre duas pessoas, o casamento já começa a ser demasiado “descartável”.
Não acho que seja necessário o casamento para reforçar os laços de um casal, no entanto, acho que é mais uma razão para fazer as relações durar. O meu único pedido aos jovens portugueses seria para olharem para os vossos avós, se ainda os tiverem, e pensarem que também gostariam de envelhecer com uma pessoa. Está certo que as novas gerações serão certamente muito diferentes das dos nossos avós, mas com trabalho arranjar-se-ia uma maneira.

Episódio de Leonardo

A história de Leonardo está contida no episódio da Ilha dos Amores nas estrofes 75 a 83 do Canto IX.
Leonardo é descrito n'Os Lusíadas como um soldado bem disposto e cavalheiro mas com má sorte no amor, pertencente à armada de Vasco da Gama.
(Leonardo, soldado bem desposto, Manhoso cavalleiro e namorado, A quem o amor não dera um só desgoto).
Neste episódio notável a forma detalhada como é descrito o seu encontro com a ninfa Efire. Destinado a conseguir alcançar e conquistar Efire, Leonardo desata numa perseguição tal ao mesmo tempo que a ninfa corre pela Ilha. Desesperado e desgostoso, Leonardo suplica a Efire que deixe de correr, pois todas já o fizeram menos ela.
 (Todas de correr cansam, Ninfa pura/ Rendendo-se à vontade do inimigo;).
É na estrofe 81, que Leonardo profere as suas últimas palavras 
(Nesta esperança só te vou seguindo:/Que ou tu não sofrerás o peso dela,/Ou, na virtude de teu gesto lindo,/Lhe mudarás a triste e dura estrela./E, se se lhe mudar, não vás fugindo,/Que Amor te ferirá, gentil donzela,/E tu me esperarás, se Amor te fere;/E, se me esperas, não há mais que espere.), às quais se rende finalmente Efire, deixando-se cair aos seus pés. (Cair se deixa aos pés do vencedor,/Que todo se desfaz em puro amor.)
Já no final da história, Camões decide opinar sobre o sucedido, aconselhando Leonardo, utilizando a o verbo julgar como se fosse imaginar.
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Até que ponto é que a descrição da Ilha dos Amores se avizinha/é contaminada pela descrição da Idade de Ouro contida no texto de Ovídio?



A descrição feita à ilha dos amores, no canto IX dos Lusíadas, é feita com uma utopia digna de epopeia. A condição de paisagens é quase inatingível do ponto de vista literário e até faz sobrevalorizar imenso a realidade.
Mas acho que existe um caracter da descrição aproximado entre a “Ilha dos Amores” de Luís Camões e a “Idade de Ouro” de Ovídio. O facto de a descrição conter impressões geográficas comuns e da descrição ser feita com adjectivação apropriada a descrição física de um individuo. Mas sobretudo, como colegas meus aqui referiram, existe o apelo a valores comuns da existência humana, a harmonia e a dignidade da existência de todos os seres.

(A editar, acho isto muito fraquinho . . . )

Lusíadas - Episódio de Leonardo e o Simbolismo do Casamento



O episódio de Leonardo, situado nas estrofes 74 à 85 do canto IX, revela que esta personagem é um fatídico desaventurado na conquista do amor. Camões descreve-o como um eterno “dano colateral”, com a seguinte passagem:

A quem o amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado.”
No entanto, Leonardo, é um claro exemplo de perseverança e determinação amorosa. Pois apesar da ingratidão que este sentimento lhe reserva parte para ele sem fraquejar, sem hesitar e esperançoso de que mude a sua história e o seu fado. De certo modo posso relacionar com o povo português, a sua atitude perante a adversidade é notória e característica dos portugueses.
Mas o que este episódio tem de tão especial, é que após a chegada dos portugueses à ilha dos amores e o início da “caça”, Leonardo, investe as suas energias a perseguir uma ninfa, quando as forças lhe falham e é impedido de prosseguir com a “caça”, e nesse momento implora que a ninfa não fuja, mas antes, que venha a seu encontro. No entanto, Vénus convence-a a satisfazer o seu desejo de modo a mudar a sua sina. De facto mudou a sua sina, e provou a sua perseverança.

Lusíadas e o Valor Simbólico do Casamento.

Para quem talvez não tenha dado por isso, eu sou cristão, não católico é certo. Mas sou cristão convicto. Embora tenha sido criado com todo o fanatismo que a minha avó tipicamente açoriana e geração ante 25 de Abril, posso dizer que não saí aos meus e degenerei, felizmente ou infelizmente já são outras histórias. Apenas sei o que casamento, perdeu a sua integridade. Seja por a sociedade ocidental e cristã tenha encarado este fenómeno como um meio de acordos diplomáticos, acordos financeiros ou simplesmente para aqueles que não tinham ambas as necessidades referidas, simplesmente deviam estar casadas, porque deviam estar casadas. E durante longos séculos foi esta a justificação.
No entanto, acredito, porque é isso que maioritariamente faço, acreditar nada mais. O casamento é a mais bela instituição social que se apresenta nos nossos dias. È tomar o mundo com toda a simplicidade e pureza e aceitar outra pessoa na nossa vida. Mais do que isso, é apresenta-la perante todos os restantes humanos no mundo, o simbolismo que o casamento dá aos indivíduos é quase uma outra identidade. È dizer que acabou o “eu” e começa o “nós”, (parece foleiro e um autêntico cliché), mas assim é o casamento. Continuo a acreditar, mais uma vez, que casar não é um dever social é um privilégio. Há quem o tome como um contracto, direi que esse é o primeiro passo para falhar, a não ser que a sua cara-metade também seja da mesma opinião, então têm tudo para vingar.
Porque acusais o insucesso do casamento um factor da sua extinção. A verdade é que por cada 100 divórcios que apresentarem, bastará para mim ver: um fiel e integro exemplo de casamento longo e árduo mas feliz e puro, para que vos seja oferecida uma nova prespectiva.