terça-feira, 16 de outubro de 2012

Episódio de Leonardo

A história de Leonardo está contida no episódio da Ilha dos Amores nas estrofes 75 a 83 do Canto IX.
Leonardo é descrito n'Os Lusíadas como um soldado bem disposto e cavalheiro mas com má sorte no amor, pertencente à armada de Vasco da Gama.
(Leonardo, soldado bem desposto, Manhoso cavalleiro e namorado, A quem o amor não dera um só desgoto).
Neste episódio notável a forma detalhada como é descrito o seu encontro com a ninfa Efire. Destinado a conseguir alcançar e conquistar Efire, Leonardo desata numa perseguição tal ao mesmo tempo que a ninfa corre pela Ilha. Desesperado e desgostoso, Leonardo suplica a Efire que deixe de correr, pois todas já o fizeram menos ela.
 (Todas de correr cansam, Ninfa pura/ Rendendo-se à vontade do inimigo;).
É na estrofe 81, que Leonardo profere as suas últimas palavras 
(Nesta esperança só te vou seguindo:/Que ou tu não sofrerás o peso dela,/Ou, na virtude de teu gesto lindo,/Lhe mudarás a triste e dura estrela./E, se se lhe mudar, não vás fugindo,/Que Amor te ferirá, gentil donzela,/E tu me esperarás, se Amor te fere;/E, se me esperas, não há mais que espere.), às quais se rende finalmente Efire, deixando-se cair aos seus pés. (Cair se deixa aos pés do vencedor,/Que todo se desfaz em puro amor.)
Já no final da história, Camões decide opinar sobre o sucedido, aconselhando Leonardo, utilizando a o verbo julgar como se fosse imaginar.
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Até que ponto é que a descrição da Ilha dos Amores se avizinha/é contaminada pela descrição da Idade de Ouro contida no texto de Ovídio?



A descrição feita à ilha dos amores, no canto IX dos Lusíadas, é feita com uma utopia digna de epopeia. A condição de paisagens é quase inatingível do ponto de vista literário e até faz sobrevalorizar imenso a realidade.
Mas acho que existe um caracter da descrição aproximado entre a “Ilha dos Amores” de Luís Camões e a “Idade de Ouro” de Ovídio. O facto de a descrição conter impressões geográficas comuns e da descrição ser feita com adjectivação apropriada a descrição física de um individuo. Mas sobretudo, como colegas meus aqui referiram, existe o apelo a valores comuns da existência humana, a harmonia e a dignidade da existência de todos os seres.

(A editar, acho isto muito fraquinho . . . )

Lusíadas - Episódio de Leonardo e o Simbolismo do Casamento



O episódio de Leonardo, situado nas estrofes 74 à 85 do canto IX, revela que esta personagem é um fatídico desaventurado na conquista do amor. Camões descreve-o como um eterno “dano colateral”, com a seguinte passagem:

A quem o amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado.”
No entanto, Leonardo, é um claro exemplo de perseverança e determinação amorosa. Pois apesar da ingratidão que este sentimento lhe reserva parte para ele sem fraquejar, sem hesitar e esperançoso de que mude a sua história e o seu fado. De certo modo posso relacionar com o povo português, a sua atitude perante a adversidade é notória e característica dos portugueses.
Mas o que este episódio tem de tão especial, é que após a chegada dos portugueses à ilha dos amores e o início da “caça”, Leonardo, investe as suas energias a perseguir uma ninfa, quando as forças lhe falham e é impedido de prosseguir com a “caça”, e nesse momento implora que a ninfa não fuja, mas antes, que venha a seu encontro. No entanto, Vénus convence-a a satisfazer o seu desejo de modo a mudar a sua sina. De facto mudou a sua sina, e provou a sua perseverança.

Lusíadas e o Valor Simbólico do Casamento.

Para quem talvez não tenha dado por isso, eu sou cristão, não católico é certo. Mas sou cristão convicto. Embora tenha sido criado com todo o fanatismo que a minha avó tipicamente açoriana e geração ante 25 de Abril, posso dizer que não saí aos meus e degenerei, felizmente ou infelizmente já são outras histórias. Apenas sei o que casamento, perdeu a sua integridade. Seja por a sociedade ocidental e cristã tenha encarado este fenómeno como um meio de acordos diplomáticos, acordos financeiros ou simplesmente para aqueles que não tinham ambas as necessidades referidas, simplesmente deviam estar casadas, porque deviam estar casadas. E durante longos séculos foi esta a justificação.
No entanto, acredito, porque é isso que maioritariamente faço, acreditar nada mais. O casamento é a mais bela instituição social que se apresenta nos nossos dias. È tomar o mundo com toda a simplicidade e pureza e aceitar outra pessoa na nossa vida. Mais do que isso, é apresenta-la perante todos os restantes humanos no mundo, o simbolismo que o casamento dá aos indivíduos é quase uma outra identidade. È dizer que acabou o “eu” e começa o “nós”, (parece foleiro e um autêntico cliché), mas assim é o casamento. Continuo a acreditar, mais uma vez, que casar não é um dever social é um privilégio. Há quem o tome como um contracto, direi que esse é o primeiro passo para falhar, a não ser que a sua cara-metade também seja da mesma opinião, então têm tudo para vingar.
Porque acusais o insucesso do casamento um factor da sua extinção. A verdade é que por cada 100 divórcios que apresentarem, bastará para mim ver: um fiel e integro exemplo de casamento longo e árduo mas feliz e puro, para que vos seja oferecida uma nova prespectiva.



     Até que ponto é que a descrição da Ilha dos Amores se avizinha/é contaminada pela descrição da Idade de Ouro contida no texto de Ovídio?

 No canto IX está presente o episódio da Ilha dos Amores, narrado por Camões, em Os Lusíadas. Neste episódio, os marinheiros portugueses avistam no meio do oceano uma ilha que aparenta estar abandonada, e decidem explorá-la. A ilha é vista como recompensa pelos feitos dos portugueses. Encontram-se ninfas que, seduzem os portugueses a mando de Vénus. Não deixando as ninfas ao inicio apanhar-se com facilidade.
     Já n´As Metamorfoses de Ovídio, estão presentes referências à Idade do Ouro. Era caracterizada pela paz, e segurança. Todos viviam em harmonia; todos eram considerados puros e imortais. Considerado um período de imensa glória.
   
Na minha opinião aquilo que se assemelha à descrição da Idade do Ouro e da Ilha dos Amores é o facto do ser humano ser considerado puro, livre, bom, sensato. Livre de castigos ou leis. Livre de preconceitos e de conceitos como o mal e o errado.

sábado, 13 de outubro de 2012

Canto IX - episódio de Leonardo




É no canto IX, que os portugueses chegam a ilha dos Amores, aqui Camões dá liberdade as paixões e aos desejos, descreve a ilha como um local paradisíaco que fora preparado pela deusa Vénus. É espantoso o cenário com que se deparam os marinheiros, onde havia todo o tipo de árvores e frutos onde a água era abundante e principalmente onde se encontravam as ninfas apaixonadas e instruídas por Vénus.  
Os marinheiros entram pelo mato, pensando que terão possibilidade de caçar, as ninfas fogem ensinadas por Vénus, sabem bem que, fazendo-se esquivas, atrairão ainda mais os marinheiros, mas pouco a pouco, vão se deixando agarrar, sorrindo e soltando gritinhos de susto. Leonardo, o símbolo do português infeliz nos amores,  homem com experiência no amor e que já tantas vezes sofrera males de amor. Leonardo suplica á sua ninfa que não lhe fuja, pois esta cansado de sofrer esta movida pela compaixão e palas palavras "bonitas" de Leonardo, realiza o desejo do seu "caçador", deixando-se agarrar. 


“ O ‘formosura indigna de aspereza
Pois desta vida te concebo a palma
Espero um corpo de quem levas a alma! “ (est.79)


As Nereidas deixam-se apanhar e toda a floresta murmura, mergulhando em amor e prazer. O poeta não descreve mais nada, este diz que é melhor experimentar o amor e quem não o puder fazer, então que o imagine.


“Melhor é experimenta-lo que julga-lo:
Mas julgue-o, quem não pode experimenta-lo” (est.83)



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Idade de Ouro


Ovídio, Metamorfoses, Livro I

De formas mudadas em novos corpos leva-me o engenho a falar. Ó deuses, inspirai a minha empresa (pois vós a mudastes também), e conduzi ininterrupto o meu canto desde a origem primordial do mundo até aos meus dias.
Antes do mar e das terras e do céu, que tudo cobre, um só era o aspecto da natureza no orbe inteiro: Caos lhe chamaram. Era uma massa informe e confusa, nada a não ser um peso inerte, nela amontoando-se as sementes discordantes de coisas desconexas. Não havia ainda qualquer Titã a oferecer luz ao mundo, nem a Febe nova, crescendo, restaurava os seus cornos, nem a Terra estava então suspensa no ar que a envolvia, em equilíbrio pelo próprio peso, nem Anfitrite estendera os seus braços a toda a volta da longa margem das terras. Mas ainda que houvesse ali terra, e mar, e atmosfera, a terra era tão instável, as ondas não navegáveis, e a atmosfera sem luz. Nada conservava a sua forma, cada coisa opunha-se à outra, pois num mesmo corpo o frio guerreava o quente, o húmido lutava com o seco, o mole com o duro, o peso com a ausência de peso.
Um deus, ou a natureza já mais benigna, pôs fim à disputa. De facto, as terras separou do céu, das terras as ondas, e dividiu o céu puríssimo da atmosfera espessa. Após os ter desembaraçado e extraído da escuro massa, uniu cada um ao seu lugar, em harmoniosa paz.
O fogo, a energia imponderável do céu convexo, pôs-se a brilhar e fez para si um lugar no ponto mais alto. O que lhe é mais próximo, pelo lugar e em leveza, é o ar. A terra, mais densa que eles, arrastou partículas maiores, e o seu peso puxou-a para baixo. A água, fluindo à volta, tomou posse do último espaço e confinou o disco sólido.
Quando aquele deus, quem quer que ele fosse, assim dispôs aquela massa e a dividiu, e, dividida, organizou em partes, primeiro, aglomerou a terra, para que fosse uniforme em toda a parte com o formato de um grande círculo. Depois, ordenou que os mares se expandissem, inchassem pelos impetuosos ventos, e rodeassem as costas da terra. Juntou também as fontes e lagoas imensas e os lagos, e também os rios em declive cingiu com sinuosas margens. Destes, nos variados sítios, uns são absorvidos pela terra, outros chegam ao mar e, acolhidos pela imensidão de água mais livre, golpeiam a costa em vez de as margens. Ordenou aos campos que se dilatassem, vales se cavassem, folhas cobrissem bosques, se erguessem pedregosos montes. E tal como há duas zonas no lado direito e outras tantas no esquerdo a dividir o céu (uma quinta é a mais ardente), assim o zelo divino dividiu em igual número a massa que o céu envolvia, e outras tantas regiões traçou na terra. Destas, a do meio não pode ser habitada devido ao calor, neve funda duas cobre. Entre aquela e estas, pôs outras duas, dando um clima temperado, com chamas à mistura com frio. Por cima delas situa-se o ar, que é mais pesado que o fogo, tanto quanto o peso da água é mais leve que o peso da terra.
Ordenou que ali as névoas se assentassem, ali as nuvens e os trovões, que perturbarão as mentes dos humanos, e os ventos, que produzem coriscos junto com relâmpagos. A estes, o construtor do mundo não permitiu que tivessem o ar indistintamente. (Ainda hoje, embora cada um dirija o sopro a partir de regiões diversas, a custo são travados de estraçalharem o mundo: tal a discórdia entre irmãos.) O Euro recolheu-se junto à Aurora, ao reino dos Nabateus e à Pérsia, e às montanhas expostas aos raios da manhã; o Héspero e os litorais amornados pelo sol do entardecer situam-se vizinhos do Zéfiro; a Cítia e os sete Triões foram invadidos pelo gélido Bóreas; a região oposta a esta é encharcada por nuvens constantes e o pluvioso Austro. Sobre tudo isto colocou o éter puríssimo, desprovido de peso, livre de quaisquer resíduos impuros da terra. Mal tudo assim compartimentara com limites precisos, quando as estrelas, há muito oprimidas por uma névoa impenetrável, desataram a fervilhar por todo o céu. E para que região alguma ficasse sem os seus seres vivos, os astros e as formas de deuses ocupam o solo celeste, as ondas couberam aos reluzentes peixes para lá viverem, a terra acolheu os animais silvestres, o móvel ar as aves.
Faltava ainda um ser mais sublime que estes, mais capaz de conter uma alta inteligência, que pudesse reger os outros. Nasceu então o homem. Este, ou o fez de semente divina aquele artífice do universo, a origem do mundo melhor; ou então a terra recente, separada há pouco do alto éter, talvez ainda contivesse sementes do céu, seu parente, terra que o filho de Jápeto, misturando com água da chuva, moldou à imagem dos deuses que governam tudo. E se os outro animais, dobrados para baixo, olham o chão, conferiu ao homem uma cara virada para cima, e instruiu-o a olhar para o céu e a erguer o rosto erecto para os astros. Deste modo, o que há pouco era terra em bruto e sem forma transformou-se e assumiu formas de homens jamais vistas.
A primeira idade a surgir foi a de ouro. Sem justiceiro algum, sem leis e de livre vontade, cultivava a lealdade e a rectidão. Não havia castigos nem medo, nem palavras de ameaça gravadas no bronze afixado, nem turba de suplicantes temia o rosto do seu juiz, mas viviam seguros, sem justiceiros. Ainda o pinheiro não fora cortado das suas serranias e descera às límpidas ondas a visitar mundo estrangeiro, e os mortais não sabiam de outras costas senão as suas. Ainda não cingiam os povoados de fundos fossos a pique, e não havia trombeta direita, nem trompa curva de bronze, nem capacetes, nem espadas. Sem precisão de soldados, as gentes viviam numa ociosidade doce, livres de cuidados. A própria terra, isenta de deveres, intocada pela enxada, ferida por nenhum arado, tudo dava espontaneamente. E, contentes com o alimento criado sem ninguém o forçar, eles colhiam medronhos e morangos dos montes, e bagas de corniso e amoras presas em espinhosas silvas, e bolotas, que tinham tombado da larga árvore de Júpiter. A Primavera era eterna, e com tépidas brisas os plácidos Zéfiros acariciavam as flores nascidas sem semente. Depois, até já a terra sem ser arada produzia cereais, e o campo sem lavra empalidecia de carregadas espigas. E então, corriam rios de leite, então, rios de néctar, e loiro mel pingava do cimo da verdejante azinheira.
Depois de Saturno ser enviado para a negridão do Tártaro e o mundo ficar sob Júpiter, sucedeu a geração de prata, inferior ao ouro, mas mais valiosa que o fulvo bronze. Então, Júpiter encurtou a duração da antiga Primavera, e, através de Invernos, Verões, inconstantes Outonos e uma Primavera breve, dividiu o ano em quatro estações. Então, pela primeira vez, o ar, queimado por calor seco, ficou incandescente, o gelo pendeu, congelado pelos ventos; então, pela primeira vez, entraram em casas (as casas eram cavernas, densas moitas, ramos entrançados com cortiça); então, pela primeira vez, enterraram as sementes de Ceres em longos sulcos e os bezerros gemeram sob o peso do jugo.
Após este geração, seguiu-se-lhe a terceira, a de bronze, de índole mais feroz, mais pronta para as horrendas armas, mas ainda não criminosa. E a última é a do duro ferro. De súbito, todo acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro, e a traição, e as insídias, e a violência, e a criminosa paixão por possuir. Velas desfraldava aos ventos (ainda nem os conhecia bem) o marinheiro, e as quilhas, que por tanto tempo estiveram nos altos montes, saltitavam em ondas desconhecidas. O prudente agrimensor marcou a terra, antes comum a todos como a luz do sol e os ares, com longos limites. E já nem apenas as searas e os alimentos devidos se exigiam ao rico solo, mas descem pelas entranhas da terra abaixo, desatam a escavar riquezas que aquela ocultara e movera para junto das sombras do Estígio, estímulos para o mal. Já o pernicioso ferro de lá surgira, e o ouro, mais pernicioso que o ferro. E surge a guerra, que luta recorrendo a ambos, e, com mão ensanguentada, brande as estrepitosas armas. Vive-se da rapina. O hóspede não está a salvo do hospedeiro, nem o sogro do genro: até a afeição entre irmãos é rara. O homem maquina a morte da esposa, esta a do marido. As aterradoras madrastas misturam amarelentos venenos. O filho, antes do tempo, inquire sobre a idade do pai. O respeito jaz vencido, e a virgem Astreia foi a última dos seres celestes a deixar as terras encharcadas de sangue.

Ovídio, Metamorfoses

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lusíadas e Fernão Veloso



A reflexão que faço ao testemunhar a prestação deste herói comum, no Canto V, Fernão Veloso, surge como uma figura contraditória à natureza heroica e quase divina dos heróis portugueses. Pela sua condição contraproducente que tem durante a viagem, mas também humorística. 

Por outras palavras, Fernão Veloso, aparece como uma humanização dos marinheiros portugueses, e é por diversas vezes capaz de quebrar a exaltação dos heróis e até proporciona momentos humorísticos e próprios da simples condição humana.