segunda-feira, 15 de outubro de 2012




     Até que ponto é que a descrição da Ilha dos Amores se avizinha/é contaminada pela descrição da Idade de Ouro contida no texto de Ovídio?

 No canto IX está presente o episódio da Ilha dos Amores, narrado por Camões, em Os Lusíadas. Neste episódio, os marinheiros portugueses avistam no meio do oceano uma ilha que aparenta estar abandonada, e decidem explorá-la. A ilha é vista como recompensa pelos feitos dos portugueses. Encontram-se ninfas que, seduzem os portugueses a mando de Vénus. Não deixando as ninfas ao inicio apanhar-se com facilidade.
     Já n´As Metamorfoses de Ovídio, estão presentes referências à Idade do Ouro. Era caracterizada pela paz, e segurança. Todos viviam em harmonia; todos eram considerados puros e imortais. Considerado um período de imensa glória.
   
Na minha opinião aquilo que se assemelha à descrição da Idade do Ouro e da Ilha dos Amores é o facto do ser humano ser considerado puro, livre, bom, sensato. Livre de castigos ou leis. Livre de preconceitos e de conceitos como o mal e o errado.

sábado, 13 de outubro de 2012

Canto IX - episódio de Leonardo




É no canto IX, que os portugueses chegam a ilha dos Amores, aqui Camões dá liberdade as paixões e aos desejos, descreve a ilha como um local paradisíaco que fora preparado pela deusa Vénus. É espantoso o cenário com que se deparam os marinheiros, onde havia todo o tipo de árvores e frutos onde a água era abundante e principalmente onde se encontravam as ninfas apaixonadas e instruídas por Vénus.  
Os marinheiros entram pelo mato, pensando que terão possibilidade de caçar, as ninfas fogem ensinadas por Vénus, sabem bem que, fazendo-se esquivas, atrairão ainda mais os marinheiros, mas pouco a pouco, vão se deixando agarrar, sorrindo e soltando gritinhos de susto. Leonardo, o símbolo do português infeliz nos amores,  homem com experiência no amor e que já tantas vezes sofrera males de amor. Leonardo suplica á sua ninfa que não lhe fuja, pois esta cansado de sofrer esta movida pela compaixão e palas palavras "bonitas" de Leonardo, realiza o desejo do seu "caçador", deixando-se agarrar. 


“ O ‘formosura indigna de aspereza
Pois desta vida te concebo a palma
Espero um corpo de quem levas a alma! “ (est.79)


As Nereidas deixam-se apanhar e toda a floresta murmura, mergulhando em amor e prazer. O poeta não descreve mais nada, este diz que é melhor experimentar o amor e quem não o puder fazer, então que o imagine.


“Melhor é experimenta-lo que julga-lo:
Mas julgue-o, quem não pode experimenta-lo” (est.83)



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Idade de Ouro


Ovídio, Metamorfoses, Livro I

De formas mudadas em novos corpos leva-me o engenho a falar. Ó deuses, inspirai a minha empresa (pois vós a mudastes também), e conduzi ininterrupto o meu canto desde a origem primordial do mundo até aos meus dias.
Antes do mar e das terras e do céu, que tudo cobre, um só era o aspecto da natureza no orbe inteiro: Caos lhe chamaram. Era uma massa informe e confusa, nada a não ser um peso inerte, nela amontoando-se as sementes discordantes de coisas desconexas. Não havia ainda qualquer Titã a oferecer luz ao mundo, nem a Febe nova, crescendo, restaurava os seus cornos, nem a Terra estava então suspensa no ar que a envolvia, em equilíbrio pelo próprio peso, nem Anfitrite estendera os seus braços a toda a volta da longa margem das terras. Mas ainda que houvesse ali terra, e mar, e atmosfera, a terra era tão instável, as ondas não navegáveis, e a atmosfera sem luz. Nada conservava a sua forma, cada coisa opunha-se à outra, pois num mesmo corpo o frio guerreava o quente, o húmido lutava com o seco, o mole com o duro, o peso com a ausência de peso.
Um deus, ou a natureza já mais benigna, pôs fim à disputa. De facto, as terras separou do céu, das terras as ondas, e dividiu o céu puríssimo da atmosfera espessa. Após os ter desembaraçado e extraído da escuro massa, uniu cada um ao seu lugar, em harmoniosa paz.
O fogo, a energia imponderável do céu convexo, pôs-se a brilhar e fez para si um lugar no ponto mais alto. O que lhe é mais próximo, pelo lugar e em leveza, é o ar. A terra, mais densa que eles, arrastou partículas maiores, e o seu peso puxou-a para baixo. A água, fluindo à volta, tomou posse do último espaço e confinou o disco sólido.
Quando aquele deus, quem quer que ele fosse, assim dispôs aquela massa e a dividiu, e, dividida, organizou em partes, primeiro, aglomerou a terra, para que fosse uniforme em toda a parte com o formato de um grande círculo. Depois, ordenou que os mares se expandissem, inchassem pelos impetuosos ventos, e rodeassem as costas da terra. Juntou também as fontes e lagoas imensas e os lagos, e também os rios em declive cingiu com sinuosas margens. Destes, nos variados sítios, uns são absorvidos pela terra, outros chegam ao mar e, acolhidos pela imensidão de água mais livre, golpeiam a costa em vez de as margens. Ordenou aos campos que se dilatassem, vales se cavassem, folhas cobrissem bosques, se erguessem pedregosos montes. E tal como há duas zonas no lado direito e outras tantas no esquerdo a dividir o céu (uma quinta é a mais ardente), assim o zelo divino dividiu em igual número a massa que o céu envolvia, e outras tantas regiões traçou na terra. Destas, a do meio não pode ser habitada devido ao calor, neve funda duas cobre. Entre aquela e estas, pôs outras duas, dando um clima temperado, com chamas à mistura com frio. Por cima delas situa-se o ar, que é mais pesado que o fogo, tanto quanto o peso da água é mais leve que o peso da terra.
Ordenou que ali as névoas se assentassem, ali as nuvens e os trovões, que perturbarão as mentes dos humanos, e os ventos, que produzem coriscos junto com relâmpagos. A estes, o construtor do mundo não permitiu que tivessem o ar indistintamente. (Ainda hoje, embora cada um dirija o sopro a partir de regiões diversas, a custo são travados de estraçalharem o mundo: tal a discórdia entre irmãos.) O Euro recolheu-se junto à Aurora, ao reino dos Nabateus e à Pérsia, e às montanhas expostas aos raios da manhã; o Héspero e os litorais amornados pelo sol do entardecer situam-se vizinhos do Zéfiro; a Cítia e os sete Triões foram invadidos pelo gélido Bóreas; a região oposta a esta é encharcada por nuvens constantes e o pluvioso Austro. Sobre tudo isto colocou o éter puríssimo, desprovido de peso, livre de quaisquer resíduos impuros da terra. Mal tudo assim compartimentara com limites precisos, quando as estrelas, há muito oprimidas por uma névoa impenetrável, desataram a fervilhar por todo o céu. E para que região alguma ficasse sem os seus seres vivos, os astros e as formas de deuses ocupam o solo celeste, as ondas couberam aos reluzentes peixes para lá viverem, a terra acolheu os animais silvestres, o móvel ar as aves.
Faltava ainda um ser mais sublime que estes, mais capaz de conter uma alta inteligência, que pudesse reger os outros. Nasceu então o homem. Este, ou o fez de semente divina aquele artífice do universo, a origem do mundo melhor; ou então a terra recente, separada há pouco do alto éter, talvez ainda contivesse sementes do céu, seu parente, terra que o filho de Jápeto, misturando com água da chuva, moldou à imagem dos deuses que governam tudo. E se os outro animais, dobrados para baixo, olham o chão, conferiu ao homem uma cara virada para cima, e instruiu-o a olhar para o céu e a erguer o rosto erecto para os astros. Deste modo, o que há pouco era terra em bruto e sem forma transformou-se e assumiu formas de homens jamais vistas.
A primeira idade a surgir foi a de ouro. Sem justiceiro algum, sem leis e de livre vontade, cultivava a lealdade e a rectidão. Não havia castigos nem medo, nem palavras de ameaça gravadas no bronze afixado, nem turba de suplicantes temia o rosto do seu juiz, mas viviam seguros, sem justiceiros. Ainda o pinheiro não fora cortado das suas serranias e descera às límpidas ondas a visitar mundo estrangeiro, e os mortais não sabiam de outras costas senão as suas. Ainda não cingiam os povoados de fundos fossos a pique, e não havia trombeta direita, nem trompa curva de bronze, nem capacetes, nem espadas. Sem precisão de soldados, as gentes viviam numa ociosidade doce, livres de cuidados. A própria terra, isenta de deveres, intocada pela enxada, ferida por nenhum arado, tudo dava espontaneamente. E, contentes com o alimento criado sem ninguém o forçar, eles colhiam medronhos e morangos dos montes, e bagas de corniso e amoras presas em espinhosas silvas, e bolotas, que tinham tombado da larga árvore de Júpiter. A Primavera era eterna, e com tépidas brisas os plácidos Zéfiros acariciavam as flores nascidas sem semente. Depois, até já a terra sem ser arada produzia cereais, e o campo sem lavra empalidecia de carregadas espigas. E então, corriam rios de leite, então, rios de néctar, e loiro mel pingava do cimo da verdejante azinheira.
Depois de Saturno ser enviado para a negridão do Tártaro e o mundo ficar sob Júpiter, sucedeu a geração de prata, inferior ao ouro, mas mais valiosa que o fulvo bronze. Então, Júpiter encurtou a duração da antiga Primavera, e, através de Invernos, Verões, inconstantes Outonos e uma Primavera breve, dividiu o ano em quatro estações. Então, pela primeira vez, o ar, queimado por calor seco, ficou incandescente, o gelo pendeu, congelado pelos ventos; então, pela primeira vez, entraram em casas (as casas eram cavernas, densas moitas, ramos entrançados com cortiça); então, pela primeira vez, enterraram as sementes de Ceres em longos sulcos e os bezerros gemeram sob o peso do jugo.
Após este geração, seguiu-se-lhe a terceira, a de bronze, de índole mais feroz, mais pronta para as horrendas armas, mas ainda não criminosa. E a última é a do duro ferro. De súbito, todo acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro, e a traição, e as insídias, e a violência, e a criminosa paixão por possuir. Velas desfraldava aos ventos (ainda nem os conhecia bem) o marinheiro, e as quilhas, que por tanto tempo estiveram nos altos montes, saltitavam em ondas desconhecidas. O prudente agrimensor marcou a terra, antes comum a todos como a luz do sol e os ares, com longos limites. E já nem apenas as searas e os alimentos devidos se exigiam ao rico solo, mas descem pelas entranhas da terra abaixo, desatam a escavar riquezas que aquela ocultara e movera para junto das sombras do Estígio, estímulos para o mal. Já o pernicioso ferro de lá surgira, e o ouro, mais pernicioso que o ferro. E surge a guerra, que luta recorrendo a ambos, e, com mão ensanguentada, brande as estrepitosas armas. Vive-se da rapina. O hóspede não está a salvo do hospedeiro, nem o sogro do genro: até a afeição entre irmãos é rara. O homem maquina a morte da esposa, esta a do marido. As aterradoras madrastas misturam amarelentos venenos. O filho, antes do tempo, inquire sobre a idade do pai. O respeito jaz vencido, e a virgem Astreia foi a última dos seres celestes a deixar as terras encharcadas de sangue.

Ovídio, Metamorfoses

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lusíadas e Fernão Veloso



A reflexão que faço ao testemunhar a prestação deste herói comum, no Canto V, Fernão Veloso, surge como uma figura contraditória à natureza heroica e quase divina dos heróis portugueses. Pela sua condição contraproducente que tem durante a viagem, mas também humorística. 

Por outras palavras, Fernão Veloso, aparece como uma humanização dos marinheiros portugueses, e é por diversas vezes capaz de quebrar a exaltação dos heróis e até proporciona momentos humorísticos e próprios da simples condição humana. 


Valores de Honestidade, Mérito e Recompensa no Canto VI

No Canto VI d'Os Lusíadas a acção decorre essencialmente no Oceano Índico, antes de chegar a Calecute, sendo esta a fase final da grande viagem.
Baco (equivalente ao Deus Grego Dionísio), o principal opositor dos heróis portugueses, vendo que os portugueses estão prestes a chegar à Índia, alegando com honestidade a razão da sua presença, resolve pedir ajuda a Neptuno, que convoca um Consílio dos Deuses Marinhos de forma a apoiar Baco, ordenando a Éolo que solte os ventos e faça afundar a armanda.
Surge assim uma terrível tempestade no mar chamando a atenção do mestre que utiliza o seu apito para alertar os outros marinheiros. Era de tal forma poderosa que depressa destrói tanto a vela como o mastro, alargando-se por todo o navio.
O mestre ordena alguns homens para darem à bomba de forma a evitar o naufrágio enquanto que outros três correm para o leme, não conseguindo mesmo assim manejá-lo. «Três marinheiros, duros e forçosos/ A menear o leme não bastaram;»
Os portugueses encontravam-se agora à mercê de Neptuno furibundo e dos ventos quadrantes que mais pareciam estar-lhes a abrir a porta para o Inferno. «Agora sobre as nuvens os subiam/As ondas de Neptuno furibundo;/Agora a ver parece que deciam/As íntimas entranhas do Profundo./Noto, Austro, Bóreas, Áquilo»~
A Natureza nesta fase do Canto era de tal forma agressiva que é realizada uma comparação com os deuses ao referir que nem outrora os deuses foram tão violentos como esta tempestade. 
Vasco da Gama começa a sentir o seu desejo de chegar ao destino a desvanecer-se, decide começar a rezar.
Mais uma vez é Venús que ajuda os Portugueses, mandando as Ninfas seduzir os ventos para os acalmar. Dissipada a tempestade, a armada avista Calecut e Vasco da Gama agradece a Deus.
Relacionado com o facto dos portugueses terem conseguido ultrapassar todos os obstáculos ao longo da sua viagem, conseguindo assim chegar ao seu destino, está o conceito de recompensa. Os marinheiros, que nunca agiram por valores como a honra e o dinheiro, receberam a imortalidade por parte do povo como recompensa aos seus feitos. Desta forma, os portugueses que partiram à busca da Índia nunca serão esquecidos, recebendo o seu verdadeiro valor, o mérito pelas suas acções. 

domingo, 7 de outubro de 2012

Fernão Veloso, um herói diferente

Neste episódio surge a caracterização de um "herói" diferente, Fernão Veloso que se revela demasiado arrogante, aventureiro e ousado, mas acaba por não conseguir realizar nenhum feito glorioso. Vendo os nativos "todos nus e da cor da escura treva" segue-os com o seu espírito "seguro" e aventureiro. Pouco depois surge do arvoredo correndo (fugindo) dos nativos que o perseguiam atirando "uma espessa nuvem" de "setas e pedradas".
Na realidade, a grande diferença entre este herói e os outros é a falta de obra feita e objectivos alcançados, devido à sua inconsciência e à falta de coragem.

sábado, 6 de outubro de 2012

De que modo nas reflexões do poeta no final do canto VI estão presentes conceitos como honestidade, mérito e recompensa?


Depois da Deusa Vénus acalmar os ventos com as suas belas ninfas atraindo-os com palavras de amor, a tempestade termina, permitindo aos portugueses chegarem finalmente a Calecute. No fim do canto VI, após Vasco da Gama ter agradecido a deusa dos portugueses por mais uma vez os ter protegido, Camões termina este canto com as suas reflexões sobre o valor dos sacrifícios que fazem alcançar a fama. Na estrofe 96 deste canto Camões afirma que até os de espírito mais nobre se podem deixar corromper pelos prazeres momentâneos  que aqueles que se deixarem amolecer podem perder a sua vicissitude. Na estrofe 97, Camões afirma que é pelo trabalho afincado que se pude alcançar a honra e só é digno dessa honra quem primeiro sofrer. Esta honra não se alcança através da herança de antepassados, mas sim com sofrimento, só assim aquele que passou por isto e foi movido pela virtude, passará para um patamar superior não porque o deseja, mas porque actua de determinada maneira. Assim os conceito de mérito, recompensa e honestidade estão presentes nas reflexões do poeta, pois Camões prefere aqueles que se movem pela capacidade de luta e sofrimento, alcançando a eternidade pelo seu valor e feitos.