terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Frei Luís de Sousa- Conceitos Remorso e Culpa

Os conceitos remorso e culpa são sentimentos que estão presentes durante toda a obra de Almeida Garrett. 
Com vista a estabelecer uma relação entre estes conceitos e um episódio particular de Frei Luis de Sousa, escolhi o caso de Madalena.
Madalena era casada com D.João de Portugal.
Em 1578, deu-se a batalha de Alcácer Quibir, a qual teve a participação do nobre D. João, que tal como D.Sebastião, desapareceu.
Sem ter notícias sobre o marido, Madalena prosseguiu com a vida e mais tarde casou com Manuel.
Ora, os sentimentos de remorso e culpa entram nesta parte do episódio. 
Remorso é um sentimento que revela um peso na consciência e culpa por ter feito algo.
Madalena casou-se com Manuel sem ter a certeza de que era viúva, pois não sabia do paradeiro do seu marido, se estava vivo ou morto. 
Madalena sentia assim culpa por se ter casado novamente sem saber se era realmente viúva. Este facto provoca um peso na sua consciência a que se dá o nome de remorso. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Culpa e Remorso, "Frei Luís de Sousa"


Madalena“Conto. Este amor, que hoje está santificado e bendito no céu porque Manuel de Sousa é meu marido, começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi … e quando o vi, hoje, hoje … foi em tal dia como hoje, D. João de Portugal ainda era vivo! O pecado estava-me no coração; a boca não o disse … os olhos não se o que fizeram, mas dentro da alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante … já não guardava a meu marido, a meu bom … a meu generoso marido … senão a do amante … já não guardava a meu marido, a meu bom … a meu generoso marido … senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quase que mais deve a si do que ao esposo. Permitiu Deus … quem sabe se para me tentar? … que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse também D. João”.

Tendo em conta este excerto é necessário compreender dois conceitos essenciais: culpa e remorso.
Culpa é a consciencialização de um acto repreensível contra a lei ou contra a moral, quanto ao remorso, é um sentimento de reprovação da consciência de uma determinada acção. Ambos os conceitos são adjacentes pelas razões óbvias ligadas às correntes éticas e morais.
Escolhi esta passagem porque transmite e relaciona ambos os conceitos de forma precisa e simples. O facto de Madalena confessar a Jorge este seu “remorso” que pesa profundamente pela memória de D. João, parte da noção de culpa que ela admite, ou seja, o remorso expressado só existe porque ela sente culpa.
Culpa pelo amor nutrido de forma imoral por Manuel de Sousa. Culpa, por ter amado em transgressão aos princípios matrimoniais que tinha com D. João. E a partir da aceitação do fardo que a culpa representa, fruto da morte de D. João e o casamento com Manuel de Sousa, todo este processo aviva essa culpa e daí resulta este profundo remorso.

Sentimento de culpa e remorso no Frei Luís de Sousa

O sentimento de culpa é um sentimento que temos depois de avaliarmos algo que fizemos de errado e possível de criticar. Remorso é um sentimento que temos por algo realizado no passado.
            Podemos relacionar estes dois conceitos com algumas passagens ou personagens do Frei Luís de Sousa. Tomemos como exemplo a cena XIV do acto segundo onde Madalena sabe que o seu ex-marido está vivo. Nesta cena Madalena tem estes dois sentimentos, culpa e remorso, devido a algo que aconteceu no passado. Em toda a história Madalena mostra algum sentimento de remorso pois casou-se pela segunda vez sem ter a certeza absoluta de que o seu marido tinha morrido.
É nesta cena que este sentimento é mais visível:
‘’Romeiro – Agora acabo: sofrei, que ele também sofreu muito. Aqui estão as suas palavras: ‘’Ide a D. Madalena Vilhena, e dizei-lhe que um homem que muito bem lhe quis… aqui está vivo… por seu mal… e daqui não pôde sair nem mandar-lhe novas suas de que há vinte anos que o trouxeram cativo.’’
Madalena – Deus tenha misericórdia de mim! E esse homem… esse homem… Jesus! esse homem era… esse homem tinha sido… levaram-no aí de onde?... de África?
Romeiro – Levaram.
Madalena – Cativo? ...
Romeiro – Sim.
Madalena – Português? … cativo da batalha de? …
Romeiro – De Alcácer Quibir.
Madalena – Meu Deus, meu Deus! Que se não abre terra debaixo dos meus pés? … Que não caem estas paredes, que não me sepultam já aqui? …’’

Sentimentos de culpa e remorso presente no Frei luís de Sousa:

“O sentimento de culpa é o sofrimento obtido após a reavaliação de um comportamento passado tido como reprovável por si mesmo. A base deste sentimento, do ponto de vista psicanalítico, é a frustração causada pela distância entre o que não fomos e a imagem criada pelo superego daquilo que achamos que deveríamos ter sido. Há também outra definição para sentimento de culpa, quando se viola a consciência moral (ou seja, quando pecamos e erramos), surge o sentimento de culpa.”

“A palavra remorso tem origem latina, vem de remorsus, particípio passado de remordere, que significa tornar a morder. Liga-se, portanto, a dilacerar, atacar, satirizar, ferir, torturar, atormentar. A própria etimologia da palavra já nos dá a ideia de como esse sentimento é doloroso e da angústia e até mesmo da vergonha que o acompanha. Isso vem da consciência de termos agido mal. Geralmente vem acompanhado de arrependimento, culpa, lamentação.  
O remorso é um sentimento sobre os acontecimentos e atitudes do passado. É a sensação do que não era para ser dito, do que não era para ser feito.”

Depois de ter esclarecido estes dois conceitos, poderei relacionar com o livro do Frei Luís de Sousa.
O Frei Luís de Sousa remota, para além dos clássicos franceses e italianos, as fortes gregas da tragédia. Enquanto naqueles se evidencia o conflito das personagens e dos sentimentos, particularmente da ambição e do amor, nestes sobressai quase sempre a intervenção de uma fatalidade transcendente aos homens indefesos. É uma fatalidade deste tipo que no Frei Luís de Sousa parece cair sobre os protagonistas. O Romeiro serve-se de portador: o aparecimento dele vem anular toda a sua vida que se erguera sobre o pressuposto á morte de D. João de Portugal, anular o segundo casamento da sua suposta viúva, e riscar da lista dos legalmente nascidos, a filha, que desse casamento nascera o passado que se julgara morto. E ninguém parece culpado, porque D. Madalena foi sempre fiel (salvo num sentimento intimamente reprimido e imponderado: o de se ter apaixonado por Manuel de Sousa, e sem que ele próprio o soubesse, quando era ainda casada com D. João), e seu marido um português exemplar. Á fatalidade nada resiste, nem mesmo os direitos da vida, que Maria nas cenas finais proclama:

Que Deus é este que esta nesse altar e que quer roubar o pai e a mãe a sua filha? (…) o outro (…) que se fique na cova ou que ressuscite agora para me matar?”

Mas, não impedia o seu protesto, Maria morre “de vergonha” como ela diz, consumindo a acção da fatalidade. A verdadeira acção da peça é a aproximação desta fatalidade, a presença cada vez mais palpável de um espectro, através dos temores de D. Madalena, das insinuações de Telmo Pais, dos sonhos de Maria. E ate o acto forte e exemplar de Manuel, incendiando patrioticamente a própria casa, serve para atrair a uma cilada do destino, obrigando a família a transferir-se para a casa do suposto morto.

Ao lado de Telmo Pais, que alias lhe serve por vezes de voz á sua consciência moral, resume a verdade a figura de D. Madalena, no seu esforço para recalcar um sentimento e esconde de si mesma a duvida que a inibe de gozar calmamente uma feliz vida. Mas que remorso e que duvida? Como nas tragédias gregas, o destino é desencadeado por uma única infracção dos costumes: aquela revolta afectiva sem consequências que D. Madalena, ainda em vida do primeiro marido, teve por Manuel de Sousa e que, subjectivamente, nunca lhe permite a certeza de tudo. Uma critica interior, talvez, ou pelo duplo complexo de culpa, inconsciente, de Telmo e D. Madalena, quer a ansiedade, e medo pegados á filha do segundo casamento. O senso do destino explicaria uma ânsia de expiar a culpa. Alias, como veremos, o sentimento de culpa surge persistentemente na obra de Garrett.
Há nesta obra duas tendências; por um lado uma “reclamação” da liberdade de amar, de corrigir, os erros conjugais evidentes, ao que se associam, pela boca da figura mais sonhadora, Maria, a exigência de “emendar o mundo”, por outro lado, acompanhando de remorsos, o sentimento religioso de um acontecimento superior, que não se encontra mais soluções para a morte injusta de Maria.     

Sentimento de Culpa e Remorso

Sentimento de culpa de remorso na personagem Madalena.
      Começo este texto explicitando os conceitos de culpa e remorso:
O sentimento de culpa é o sofrimento adquirido depois da avaliação de um procedimento considerado criticável. Há também outra definição para sentimento de culpa: quando se viola a consciência moral pessoal, ou seja, quando pecamos e erramos.
O Remorso é a reprovação da consciência que sente haver cometido uma imperfeição. O remorso é mais forte que a tristeza e implica um estado de longo prazo. Ao mesmo tempo sugere um grau de renúncia, o que atribui ao remorso um certo grau de dignidade.  
Na personagem Madalena, de Frei Luís de Sousa, podemos certamente afirmar que estamos perante uma personagem que vive em torno destes dois sentimentos, porém todas as outras personagens seguem este mesmo padrão.
No seu caso específico deve-se ao amor, é por amor que ela sente estes remorsos e culpa. Ela casa com D. João de Portugal sem nunca o ter amado, tendo um amor Manuel de Sousa Coutinho. Com o desaparecimento de D. João na Batalha de Alcácer Quibir ela vive num constante medo que ele regresse, porém não acredita no mito de D. Sebastião "D. João ficou naquela batalha... com a flor da nossa gente" - acto I cena II. Madalena manteve-se sempre fiel ao seu marido devido à sua posição social e tinha portanto de manter a sua dignidade. É mais precisamente no acto II cena X que presenciamos Madalena e o Remorso do pecado do passado: «Madalena - Hoje... hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado... que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça... É um dia fatal para mim: faz hoje anos que... que casei a primeira vez; faz anos que se perdeu el-rei D. Sebastião; faz anos também que... vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.
Jorge - Pois contais essa entre as infelicidades de vossa vida?
Madalena - Conto. Este amor - que hoje está santificado e bendito no Céu, porque Manuel de Sousa é meu marido - começou com um crime, porque eu amei-o assim que o vi... e quando o vi - hoje, hoje... foi em tal dia como hoje! - D. João de Portugal ainda era vivo. O pecado estava-me no coração; a boca não o disse... os olhos não sei o que fizeram; mas dentro da minha alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante... já não guardava a meu marido, a meu bom... a meu generoso marido... senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quase que mais deve a si do que ao seu esposo. Permitiu Deus... quem sabe se para me tentar?... que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse também D. João...»

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Apresentação do livro ‘A Castro’ de António Ferreira

A Tragédia Castro de António Ferreira simboliza a mais sincera e verdadeira força do amor que leva um Rei a aperceber-se da crueldade de uma decisão estatal injusta (que acaba por acontecer), mas que ao mesmo tempo acaba por vencer a própria Morte.
A peça está escrita em versos e está dividida em cinco actos. No acto I, surge de imediato o elemento gerador da acção: o amor de D. Pedro e D. Inês que põe em perigo a independência nacional. O coro intervém na acção. No acto II, D. Afonso IV discute com os conselheiros: dilacerado entre o seu coração de pai e a sua função de rei, lava as mãos e deixa que aqueles prendam D. Inês. No ato III, D. Inês conta à Ama um sonho cruel e o coro anuncia a sua morte. No ato IV, o conflito atinge o clímax com o emocionante espectáculo de Inês implorando a clemência do rei para si e para seus filhos. O rei hesita e a tragédia consuma-se. No ato V, D. Pedro sabe do sucedido por um mensageiro e promete vingança. Pelo que toca a D. Afonso IV e aos seus conselheiros, o conflito trava-se entre a Razão de Estado ou "bem comum", propugnada pelos Conselheiros ("O bem comum, Senhor, tem, mais larguezas/ com que justifica obras duvidosas"), e o sentimento de justiça, individualmente considerado no caso de Inês, tanto mais que se trata de uma pena de morte e "enganam-se os juízes muitas vezes". Seria difícil encontrar-se uma tragédia cujas determinantes decorram de uma tão irresistível lógica de situações."
Durante toda a peça podemos notar marcas de pessimismo e de amor-morte, como por exemplo: o antagonismo entre a paixão de D. Inês e D. Pedro e os altos interesses do estado, representados pelos Conselheiros do Rei; D. Inês: a revelação de uma alma apaixonada e segura do seu príncipe, embora atormentada por angustiosos receios, por previsões (sonhos) e avisos; D. Pedro: a obstinação em pospor os interesses do estado aos do seu coração face a atitudes de moderação aconselhadas; D. Afonso IV: a luta psicológica entre os imperativos da razão e os chamamentos do coração, exacerbados por D. Inês, no discurso em prol da sua defesa; Conselheiros: a representação do veredicto do destino, pelo desafio lançado a leis de ordem superior - origem da fatalidade que vai imperar sobre Inês e Pedro e determinar a morte de um e a dor irreparável de outro.