quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Gloria Vivaldi Holland Boys Choir - Pieter Jan Leusink

Questionário a propósito da secção I do «Sermão de Santo António», do Padre António Vieira.

Vós sois o sal da terra é o texto bíblico que introduz este Sermão e que irá ser comentado de acordo com o tema e as teses que o orador se propõe desenvolver.
Procuremos seguir a sua argumentação.
I
1.       A explicação da metáfora. Porque são os pregadores o sal da terra?
2.       A constatação da ineficácia do sal. Como se comprova essa ineficácia?
3.       Esta constatação leva, naturalmente, à busca da causa – ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar.
            Lê atentamente o excerto que desenvolve esta metáfora e indica a forma utilizada pelo orador para a explicitar e clarificar.
4.       A causa é apresentada em alternativa: ou…ou. A solução do problema segue processo idêntico? Justifica a tua resposta, apresentando as propostas.
5.       Este Sermão visa comemorar o dia de Santo António (13 de Junho). 
            Procura explicar como, partindo do texto bíblico Vós sois o sal da terra, se chega: ao louvor a Santo António; ao que constitui o desenvolvimento do Sermão: pregar aos peixes.
6.       Que efeito(s) se pretende(m) obter com a inclusão de frases interrogativas no discurso oratório?
7.       Cita alguns passos deste excerto introdutório do Sermão em que a simetria (sintáctica, morfológica ou semântica) proporcione um ritmo específico ao discurso.

Apólogo da Morte

Vi eu um dia a Morte andar folgando
Por um campo de vivos que a não viam.
Os velhos, sem saber que o faziam,
A cada passo nela iam topando.

Na mocidade os moços confiando,
Ignorantes da Morte a não temiam.
Todos cegos, nenhuns se lhe desviam:
Ela a todos co dedo os vai contando.

Então quis disparar, e os olhos cerra:
Tirou e errou. Eu, vendo seus empregos
Tão sem ordem, bradei: Tem-te, homicida!

Voltou-se e respondeu: Tal vai de guerra!
Se vós todos andais comigo cegos,
Que esperais que convosco ande advertida?

D. Francisco Manuel de Melo

Soneto

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nace tardar-me tanto a morte,
Se ausente da alma estou que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte;
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirando ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é por que sinta a morte de tal vida.

Sóror Violante do Céu

Antes da Confissão

Eu que faço? que sei? que vou buscando?
Conto, lugar ou tempo a esta fraqueza?
Tenho eu mais que acusar, por mais firmeza,
Toda a vida sem mais como nem quando?

Se cuidado, Senhor, falando, obrando,
Te ofende minha ingrata natureza,
Nascer, viver, morrer, tudo é torpeza.
Donde vou? donde venho? donde ando?

Tudo é culpa, ó bom Deus! Não ua e ua
Descubro ante os teus olhos. Toda a vida
Se conte por delito e por ofensa.

Mas que fora de nós, se esta, se algua
Fora mais que ua gota a ser medida
C’o largo mar de tua graça imensa?

D. Francisco Manuel de Melo 

À Fragilidade da Vida Humana

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse estio em vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o sol, a rosa, a primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, primavera, sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos

O Formalismo seiscentista, como consequência da repressão ideológica

A fase formalista atingida em Itália, e também na Inglaterra e na França, teve entre nós grande generalização e duração, porque a favoreceram circunstâncias histórico-culturais apenas semelhantes às que encontrou em Espanha. Por um lado, o pensamento peninsular foi subordinado a diretrizes que o acautelavam contra todas as curiosidades e todos os problemas que pudessem trazer perturbações à unanimidade da ortodoxia, com dura intransigência e aterradores processos defendida pela Inquisição. Por outro lado, no ambiente espiritual de tal modo fechado a infiltrações estrangeiras, compreende-se nada ocorresse de excitante para a vida intelectual numa Pátria e numa Corte sobretudo preocupadas com os problemas militares e económicos, tanto mais urgentes quanto era a própria existência delas que os impunha. (…)
Daí resultou que a literatura de ficção, e sobretudo a poesia, se mantiveram distantes e alheias. Pode dizer-se que regressou à sua categoria de atividade lúdica, de mero entretenimento, como o fora para os poetas dos Cancioneiros medievais e a maior parte dos do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.
Teoriza-a D.Francisco Manuel de Melo, seu cultor, como «lição não própria de sesudos, mas de mancebos, damas e ociosos…»; e acrescenta que «se funda em dois pólos, que são o amor e a ociosidade». Por isso mesmo, a concluir tanto do que sobre ela pensa, como do modo como a pratica, é a poesia, para este autor como para a sua época, que ninguém melhor representa, um jogo, um entretenimento, um prazer da imaginação sensual ou da inteligência engenhosa. Exlui-se dela não só a gravidade da preocupação social, da comoção religiosa, mas até as efusões da emoção pessoal. Ela deve ser dirigida à inteligência como objeto de subtil exercício, e à memória, para fidalgo ornamento dos mais desocupados. Quase nada tem que ver com o coração, de cujas dores mais profundas faz encantadoras charadas, artificiosas filigranas verbais. Ela deve ser, do ponto de vista formal, tão complicada e galante como as boas maneiras de sala, ou tão excessiva de luxos ornamentais como a arquitetura, a indumentária, o próprio culto religioso do tempo. Tudo calculado, desde o recorte da frase, até aos movimentos da paixão. Em tudo a preocupação do arranjo, do enfeite, do jogo, do artigo, até lá onde mais a aparência de sinceridade ou a real gravidade do tema parece deveriam suscitar a naturalidade e a verdade da forma por que se traduzisse.
A poesia seiscentista é comummente chamada gongórica, como gongórica se chamou toda a escola literária que domina o século. Tal designação pode induzir, e a cada passo induz, no erro de se considerarem como influenciados por Gôngora trechos em que nem a sua técnica nem o seu espírito se projetam – e ainda no erro de englobar na mesma categoria atitudes e processos diferentes ao ponto de se oporem. (…)
Duas atitudes diferente, dois diferentes processos: a atitude sensual de rebusca do mais pulcro e fulgurante para o encanto dos olhos; a atitude intelectual, que formula o conceito engenhoso, para deliciado pasmo do espírito dialético.
O primeiro trecho não tem de ser claro; basta-lhe deslumbrar a imaginação visual com o coruscante jogo das imagens. Ao segundo cumpre que seja inteiramente inteligível, ainda que subtil, porque todo o seu preciosismo está no rebuscado da construção dialética. (…)
Mas cultismo e conceptismo são duas expressões de um conceito de poesia fundamentalmente idêntico e que se integra no estilo da época barroca: o que a reduz a uma atividade puramente lúdica. Não exprime a vida; distrai da vida. Quando muito, sobrepõe ao plano da realidade o plano do ideal, construído com o que naquela haja de mais famoso e puro, fulgurante e nobre, e para ele perpetuamente provoca a evasão da sensibilidade, da imaginação e da inteligência. De qualquer modo, é um jogo, que tem no puro gozo estético toda a sua finalidade. Jogo de palavras, faiscante de graciosos trocadilhos ou equívocos; jogo de imagens – as imagens de variado tipo com que se aformoseia, se transfigura a realidade; jogo de construções, com  que se organiza a frase e se molda o pensamento dentro de modelos predeterminados – simetrias, paralelismos, cruzamentos, antíteses, alternâncias, enumerações e suas repetições; jogo de conceitos – os conceitos subtilizados pelos hábitos escolásticos, que os substituíam à observação e à experiência, com as quais lá fora se começava a renovação de toda a vida intelectual.

Hernâni Cidade, A Poesia Cultista e Conceptista