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domingo, 17 de março de 2013

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois - Alberto Caeiro


XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente
E eu não sabia nada do que de mim faziam...
Mas eu não sou um carro, sou diferente
Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.

O tema central deste poema é claramente a vida.

A expressão inicial "quem me dera" seguida do subjuntivo "fosse" remete para um desejo do poeta, assim como para a sua insatisfação em relação à sua vida. Esta expressão também pode indicar que o sujeito poético tem a consciência de que a sua vontade de ser outro ou outra coisa é impossível.


  • Negação de si mesmo

Alberto Caeiro é considerado Mestre porque dentro dos heterónimos é o mais equilibrado, uma vez que é o único totalmente exterior e que percebe a singularidade das coisas devido à sua forma de ver que se caracteriza como neutra, exterior.

Neste poema, Alberto Caeiro vai contra as suas ideologias na medida em que nega a sua existência, rejeita a realidade, ao querer ser algo que não é.

Esta situação é comparável com Fernando Pessoa Ortónimo uma vez que este, no poema "Ela canta pobre ceifeira" deseja ser inconsciente, ingénuo, como a ceifeira pois essa é a única causa da sua alegria. 



  • O desejo de ser inconsciente e as sensações
Este desejo de ser inconsciente está ligado à dor de pensar e à anulação do pensamento metafísico.

Para Caeiro, a sensação é a forma de conhecimento do mundo, sendo mais importante ver e sentir do que o verdadeiro acto de pensar.
Deparamo-nos assim com um paradoxo: sensação/verdade, pensamento/mentira.
Alberto Caeiro crê que o ser humano é concebido como um ente sem dentro e sem interior, isto é, a relação do ser humano com a realidade é guiada pelo exterior, pelo factor fora, tenho como referencial o corpo.

  • Alberto Caeiro e Nietzsche
"É preciso destruir a moral para libertar a vida"

Segundo Nietzsche, a cultura ocidental está envenenada por uma certa moral que desvaloriza o mundo sensível de tudo o que é corpóreo, valorizando a razão.
Esta sobrevalorização da razão é para Nietzsche um sintoma de decadência e de falta de vitalidade.
Nietzsche considera que a razão é um instrumento que despreza tudo o que é difícil controlar, ou seja, o corpo, as emoções e os sentimentos.
Da mesma maneira, Caeiro defende que a sensação é mais importante do que a racionalidade, pois ela traduz sempre aquilo que é verdadeiro.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Episódio de Leonardo

A história de Leonardo está contida no episódio da Ilha dos Amores nas estrofes 75 a 83 do Canto IX.
Leonardo é descrito n'Os Lusíadas como um soldado bem disposto e cavalheiro mas com má sorte no amor, pertencente à armada de Vasco da Gama.
(Leonardo, soldado bem desposto, Manhoso cavalleiro e namorado, A quem o amor não dera um só desgoto).
Neste episódio notável a forma detalhada como é descrito o seu encontro com a ninfa Efire. Destinado a conseguir alcançar e conquistar Efire, Leonardo desata numa perseguição tal ao mesmo tempo que a ninfa corre pela Ilha. Desesperado e desgostoso, Leonardo suplica a Efire que deixe de correr, pois todas já o fizeram menos ela.
 (Todas de correr cansam, Ninfa pura/ Rendendo-se à vontade do inimigo;).
É na estrofe 81, que Leonardo profere as suas últimas palavras 
(Nesta esperança só te vou seguindo:/Que ou tu não sofrerás o peso dela,/Ou, na virtude de teu gesto lindo,/Lhe mudarás a triste e dura estrela./E, se se lhe mudar, não vás fugindo,/Que Amor te ferirá, gentil donzela,/E tu me esperarás, se Amor te fere;/E, se me esperas, não há mais que espere.), às quais se rende finalmente Efire, deixando-se cair aos seus pés. (Cair se deixa aos pés do vencedor,/Que todo se desfaz em puro amor.)
Já no final da história, Camões decide opinar sobre o sucedido, aconselhando Leonardo, utilizando a o verbo julgar como se fosse imaginar.
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Valores de Honestidade, Mérito e Recompensa no Canto VI

No Canto VI d'Os Lusíadas a acção decorre essencialmente no Oceano Índico, antes de chegar a Calecute, sendo esta a fase final da grande viagem.
Baco (equivalente ao Deus Grego Dionísio), o principal opositor dos heróis portugueses, vendo que os portugueses estão prestes a chegar à Índia, alegando com honestidade a razão da sua presença, resolve pedir ajuda a Neptuno, que convoca um Consílio dos Deuses Marinhos de forma a apoiar Baco, ordenando a Éolo que solte os ventos e faça afundar a armanda.
Surge assim uma terrível tempestade no mar chamando a atenção do mestre que utiliza o seu apito para alertar os outros marinheiros. Era de tal forma poderosa que depressa destrói tanto a vela como o mastro, alargando-se por todo o navio.
O mestre ordena alguns homens para darem à bomba de forma a evitar o naufrágio enquanto que outros três correm para o leme, não conseguindo mesmo assim manejá-lo. «Três marinheiros, duros e forçosos/ A menear o leme não bastaram;»
Os portugueses encontravam-se agora à mercê de Neptuno furibundo e dos ventos quadrantes que mais pareciam estar-lhes a abrir a porta para o Inferno. «Agora sobre as nuvens os subiam/As ondas de Neptuno furibundo;/Agora a ver parece que deciam/As íntimas entranhas do Profundo./Noto, Austro, Bóreas, Áquilo»~
A Natureza nesta fase do Canto era de tal forma agressiva que é realizada uma comparação com os deuses ao referir que nem outrora os deuses foram tão violentos como esta tempestade. 
Vasco da Gama começa a sentir o seu desejo de chegar ao destino a desvanecer-se, decide começar a rezar.
Mais uma vez é Venús que ajuda os Portugueses, mandando as Ninfas seduzir os ventos para os acalmar. Dissipada a tempestade, a armada avista Calecut e Vasco da Gama agradece a Deus.
Relacionado com o facto dos portugueses terem conseguido ultrapassar todos os obstáculos ao longo da sua viagem, conseguindo assim chegar ao seu destino, está o conceito de recompensa. Os marinheiros, que nunca agiram por valores como a honra e o dinheiro, receberam a imortalidade por parte do povo como recompensa aos seus feitos. Desta forma, os portugueses que partiram à busca da Índia nunca serão esquecidos, recebendo o seu verdadeiro valor, o mérito pelas suas acções. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Canto V- Episódio de Fernão Veloso


As estrofes 31-35 do Canto V dos Lusíadas têm como assunto principal uma personagem, Fernão Veloso. Fernão Veloso foi um marinheiro português, que acompanhou Vasco da Gama na viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia.
Nos Lusíadas, este personagem é descrito como aventureiro, fanfarrão e pouco dado a feitos históricos.
Ao atracarem na costa africana, os portugueses fizeram contacto com os nativos. Um Etíope convida Fernão Veloso a conhecer o local, que o acompanha sem qualquer preocupação, ignorando o perigo. «É Veloso no braço confiado, E de arrogante crê que vai seguro». Depressa se arrepende pois é perseguido por um grupo de africanos e vendo-se sozinho e sem ninguém para o ajudar, é forçado a regressar ao navio. «Mais apressado do que fora, vinha.»; «Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,/Se mostra um bando negro descoberto.»
Quando regressa ao navio, é alvo de chacota por parte dos companheiros por ter entrado terra adentro com tanta confiança. «Começando-se todos a sorrir)-"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro,/ É melhor de descer que de subir.» Ao que Fernão Veloso responde, procurando manter a sua postura de herói, afirmando que correra à frente dos nativos por se ter lembrado que os seus companheiros estavam ali sem a sua ajuda «- "Sim, é, (responde o ousado aventureiro/Mas quando eu para cá vi tantos vir/ Daqueles cães, depressa um pouco vim,/ Por me lembrar que estáveis cá sem mim».
Este episódio é assim marcado pelo humor e ironia da situação mas também é importante na medida em que expõe a hostilidade com que alguns povos nativos receberam os viajantes. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Resumo da Aula

O tema da passada aula de Português dia 17 de Fevereiro foi sobre o facto de as crianças nascerem ou não com carácter e atitudes nocivas para a sociedade em que vivemos. Este tópico surgiu devido à ocorrência do crime perpetrado recentemente na cidade de Beja, da qual resultou a morte de três pessoas, entre as quais uma criança de 4 anos bem como animais de estimação.
Na minha opinião todas as pessoas nascem com um bem comum. Posteriormente, a acompanhar o crescimento as pessoas vão-se moldando de acordo com a educação que lhes é dada pelos pais e também pela escola. Paralelamente o espaço geográfico e a sociedade onde nos inserimos condiciona o nosso desenvolvimento como ser humano integrado numa comunidade.
Acho que as pessoas que têm um comportamento incorrecto  e desadequado às boas normas vigentes  são altamente influenciadas pela sociedade e também por factores de ordem social, cultural, étnica, económica e política. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Frei Luís de Sousa- Conceitos Remorso e Culpa

Os conceitos remorso e culpa são sentimentos que estão presentes durante toda a obra de Almeida Garrett. 
Com vista a estabelecer uma relação entre estes conceitos e um episódio particular de Frei Luis de Sousa, escolhi o caso de Madalena.
Madalena era casada com D.João de Portugal.
Em 1578, deu-se a batalha de Alcácer Quibir, a qual teve a participação do nobre D. João, que tal como D.Sebastião, desapareceu.
Sem ter notícias sobre o marido, Madalena prosseguiu com a vida e mais tarde casou com Manuel.
Ora, os sentimentos de remorso e culpa entram nesta parte do episódio. 
Remorso é um sentimento que revela um peso na consciência e culpa por ter feito algo.
Madalena casou-se com Manuel sem ter a certeza de que era viúva, pois não sabia do paradeiro do seu marido, se estava vivo ou morto. 
Madalena sentia assim culpa por se ter casado novamente sem saber se era realmente viúva. Este facto provoca um peso na sua consciência a que se dá o nome de remorso. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas

A acção decorre em França, nos tempos de Napoleão. A historia centra-se em Edmond Dantés, um jovem marinheiro que aspira ser promovido a capitão e casar com Mercedès. Infelizmente existem duas pessoas que desejam o seu insucesso: Danglars, que quer ser capitão e Fernand que está apaixonado por Mercedès, sua prima. Os dois rivais decidem escrever uma carta de acusação contra Edmond, por colaborar com o exilado imperador Napoleão e enviam-na para as autoridades.O vizinho de Edmond, Caderousse, ouve a conversa mas a cobardia impede-o de agir e ajudar Edmond quando este fica em apuros.Quando é preso, Edmond é levado á presença do assistente de Juiz, Monsieur Villefort (filho do destinatário da carta que Edmond foi buscar à Ilha de Elba, a mesma que originou a sua prisão).A principio,Villefort simpatiza com Edmond e promete ajudar,mas quando descobre que o seu pai está envolvido num plano para assassinar o Rei, decide enviar Edmond para a prisão de If,para ninguem o voltar a ver. Passam quinze anos até Edmond conseguri fugir da prisão, nesse tempo conhece o Abade Faria, um estranho idoso, que se converte num segundo pai e melhor amigo de Edmond. O Abade concede a Edmond um mapa com um tesouro e ensina-lhe línguas, matemática, fisica e outras disciplinas que virão a provar-se uteis no futuro. Juntos planearam fugir da prisão, mas uma vez que a idade não perdoa, o Abade Faria faleceu, antes de conseguirem concretizar o plano. Uma vez fora da prisão, Edmond reinventa-se e converte-se em três personagens: Abade Busini, Lorde Wilmore e Conde de Monte Cristo.O seu objectivo é vingar-se daqueles que o encarceraram, mas primeiro tem que se infiltrar na sociedade. Danglars é agora Barão e banqueiro,um dos mais importantes de Paris. Fernand é Conde de Morcef e casado com Mercedès com quem teve um filho, Albert. Villefort é juiz do Rei e Caderousse converteu-se num depravado ladrão. O seu charme, exotismo e dinheiro que ganhou graças a informações do Abade ganham a Edmond um lugar na aristocracia Parisiense onde se move e planeia a sua vingança.
O tópico central deste livro é a vingança e os limites da justiça humana, existindo também presentes sentimentos como o ódio, a solidão, a extrema felicidade e a absoluta tristeza.
Penso que de certa forma é possível relacionar este livro com o livro "Alice no País das Maravilhas". Ambos tratam, um mais do que o outro, do tema justiça. Na obra "Conde de Monte Cristo"  no caso de Edmond, pois foi-lhe armada uma cilada e dessa forma foi preso injustamente, visto que não tinha feito nada de errado. Na "Alice no País das Maravilhas" temos injustiça no que toca ao facto da Rainha mandar decapitar os seus servos por razões sem sentido, como pintar as rosas de cor errada.
Daquilo que li deste livro posso concluir diferentes pontos de vista e diferentes ideias acerca de justiça. O mundo é feito de injustiças e por vezes nada podemos fazer para mudar, o que não se aplica a Edmond, a personagem principal deste livro, que após 15 anos na prisão, decide fazer justiça pelas próprias mãos.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dissertação Sobre Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll

O inicio do conto retrata uma rapariga de nome Alice que está no jardim a ter uma lição de Literatura com a sua irmã. Subitamente Alice adormece e começa sonhar, imaginando diversas coisas e personagens inexistentes na vida real as quais têm significados subentendidos. Alice no País das Maravilhas também pode ser entendido como um conto que retrata a vida de uma adolescente na sua fase de transição de criança para adulto, indicando certos valores morais ao longo da história.
Uma das ideias que este conto pretende transmitir, é a ideia de justiça. O conceito de justiça pode-se considerar como relativo, pelo facto de uma situação poder ser considerada justa para uns e injusta para outros. Ora, é isso mesmo que acontece neste conto. É no capítulo III no qual o Rato conta uma história a Alice pretendendo demonstrar-lhe a razão pela qual não gostava de cães. Nesta história o Rato relata que um dia, quando Fúria (uma cadela) o encontrou no quintal acusou-o de injúria capital e como deveria ser castigado, sendo julgado no Tribunal. Entretanto, o Rato repara que não havia nem juiz, nem jurado para resolver este caso e Fúria não tardou a apresentar-se como juiz e jurada. Num caso normal, tal nunca poderia acontecer, pois seria considerado injusto. No entanto, no País das Maravilhas foi aceite. Aqui se pode observar um dos casos onde a ideia de justiça é diferente, pois sob o meu ponto de vista esta situação em que a cadela colocou o Rato é totalmente injusta, enquanto que no País das Maravilhas já é considerado justo.
Outra situação onde se pode verificar a diferença entre a justiça no real e no País das Maravilhas é no capítulo XI onde o Valete é acusado pela Rainha de roubar as suas tartes injustamente, pois na verdade, ele não tinha cometido tal acção. Mesmo assim, o Valete foi a Tribunal apesar de não existirem quaisquer provas ou testemunhas.
E não só estas duas situações, mas também o facto de sempre que alguém errava ou fazia algo contrariando o que a Rainha queria e dizia, era imediatamente mandado decapitar.
Podemos então verificar, que nas situações não há qualquer sentido de justiça. A justiça deve respeitar certas leis as quais estão estipuladas numa Constituição. No entanto, no País das Maravilhas, não há esse tipo de Justiça.

As diversas diminuições e aumento de tamanho de Alice representam a entrada de Alice na adolescência o que leva a uma instabilidade emocional.
No primeiro capítulo Alice diminui quase até desaparecer o que fez com que se sentisse insignificante. Mais tarde apesar de aumentar de tamanho ainda não se sente satisfeita pois entende que, à medida que se cresce existem mais responsabilidades. No entanto, já no final do conto, Alice cresce bastante (nomeadamente no capítulo do julgamento), sentindo-se mais confiante devido às experiências vividas ao longo do conto.
No capítulo onde o pescoço de Alice cresce, a sua capacidade de observação torna-se mais ampla. A mudança de criança para adolescente, traz também uma nova visão sobre a vida, uma nova maneira de pensar e de agir.
Alice depara-se então com uma constante mudança de tamanho, o que representa o seu crescimento, fazendo-a entender juntamente com outras situações que ocorrem ao longo do conto que já não é mais uma criança, mas sim uma adolescente.

Alice também é submetida a questões sobre quem é, como por exemplo podemos observar no capítulo X, onde a Lagarta começa a fazer perguntas a Alice sobre a sua identidade, fazendo Alice duvidar de si mesma ficando num estado confuso típico da adolescência. Podemos então dizer que Alice se deparou com uma crise de identidade, pois com tantas mudanças (tanto físicas como psicológicas), começa a ter dúvidas acerca daquilo que é e acerca de quem é. É também na adolescência que muita gente se depara com este tipo de situações.

Podemos concluir então que isto não é só uma história para crianças, antes pelo contrário. É uma questão sobre o que é a realidade, onde Alice deixa o seu confortável mundo e vai para um mundo onde vai para a imaginação e a fantasia, embora sendo essencialmente uma história sobre as mudanças da adolescência bem como as crises emocionais e de identidade.