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sexta-feira, 15 de março de 2013

"Chuva obliqua", IV parte


Em Portugal, o modernismo surgiu publicamente em 1915 com a publicação da revista “Orpheu”. De entre os grupos de vários autores plásticos que participaram no movimento, que viria a ser conhecido como “os de Orpheu”, destacam-se os nomes de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Amadeu de Souza-Cardoso. Os homens deste movimento modernista escandalizaram e assustaram os intelectuais e a sociedade da época. 
O interseccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela intersecção no poema de vários níveis simultâneos de realidade. Processo típico da pintura futurista (caraterizado por sobreposições dinâmicas), que depois se aplicou à poesia do Modernismo. O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" nº2, 1915), é talvez o exemplo mais significativo deste novo processo. Nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o atual e o pretérito, o real e o onírico, o poeta é uma alma dividida, que capta subtis correspondências de sensações.

Que pandeiretas o silencio deste quarto!...

As paredes estão na Andaluzia…

Há danças sensuais no brilho fixo da luz…

 

De repente todo o espaço pára…

Pára, escorrega, desembrulha-se….,

E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,

Abrem mãos brancas janelas secretas

E há ramos de violetas caindo

De haver uma noite de Primavera lá fora

Sobre o eu estar de olhos fechados…

 

Na quarta parte do poema, o espaço interior (o Quarto) abre-se para o mundo exterior e o silêncio é imaginariamente invadido pelas pandeiretas das danças na Andaluzia. O distante ruidoso vem interseccionar o silêncio que rodeia o poeta. É esperado que o poeta encontre neste mundo exterior o que não pode encontrar dentro de si. No quarto e no quinto verso, o sujeito poético utiliza palavras como, “Pára, escorrega, desembrulha-se”, de forma a ampliar o ser interior real que é de infelicidade, mostrando negatividade e amargura.
Enquanto a partir do sexto verso, existe uma espécie de interiorização do exterior, passa-se da pura interioridade para a admissão de dois mundos – o exterior e o interior – que comunicam através de “janelas secretas” com “ramos de violetas” e “uma noite de Primavera lá fora”. Na minha opinião o poeta tem grande dificuldade em ultrapassar o seu mundo interior, representado pelas “janelas secretas” e penetrar no mundo exterior, que é “a noite de Primavera lá fora”. Na quarta parte da Chuva Obliqua, bem como nas outras partes é possível ver-se a constante fragmentação do “eu”: ao longo do poema o sujeito poético revela-se duplo, na busca de sensações que lhe permitem antever a felicidade ansiada, mas inacessível. Mas também recria vivências que se interseccionam com outras que, por sua vez, dão origem a novas combinações de realidade/idealidade. A partir do sexto verso parece transparecer dos versos uma ideia de esperança de alcançar a felicidade entre os planos, mas é apenas uma “ideia” de esperança pois o poeta ortónimo, vive da transição de planos, e da dúvida.
A análise deste poema pode muito bem trazer-nos à ideia um quadro de pintura futurista, por exemplo, de Picasso, com todas as interações, desconexas e caóticas, de linhas e planos, “Chuva Obliqua” pode ter sido, pois, uma resposta lírica ao movimento futurista internacional, no campo da pintura, da escultura e da música, que tanto espantava e até atacava, o mundo cultural de então.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Poema "Conselho"


“Conselho” é um poema de Fernando Pessoa, publicado no mesmo mês que este falecera, pensando-se ser o seu último poema. É um poema que faz parte da poesia do ortónimo.

A poesia do ortónimo é uma tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta. Pessoa recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo inteligível, platónico, aquele a que ele não tem acesso, pela sensação de inquietação que sente face às suas perceções. Esta inquietação dá origem a uma poesia abrangente a várias tendências que vão desde a nostalgia dum bem perdido (infância) até ao interseccionismo impressionista. Uma das principais características do poeta ortónimo é a dor de pensar, expressa em tensões e dicotomias que espalham a sua complexidade interior.

É na escrita ortónimo, mais facilitada e abreviada, que aparecem os temas mais estranhos e misteriosos bem como a presença de temas como Pensar/Sentir; Sinceridade/Fingimento e Consciência/Inconsciência, é este último tema que o poema “conselho” vai dar mais importância.

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

A primeira estrofe do poema, dá-nos claramente a ideia de inconsciência/interioridade e de consciência/exterioridade. O autor utiliza os sonhos para representar o nosso inconsciente, visto que é neste que eles se formam e são exclusivamente nossos, desta forma ele diz que devemos cercar o nosso interior de grandes murros, de modo a proteger os nossos sonhos, bem como os nossos pensamentos e nunca os revelar. Por outro lado, Pessoa utiliza as flores para representar o consciente, sendo flores algo bonito que toda a gente aprecia, o autor diz que devemos mostrar o nosso exterior, revelar aos mais próximos de nós quem realmente somos. As “flores risonhas”, representam as qualidades que devemos expor para os outros. Nesta estrofe, é também visível a preferência do autor, ao seu interior, ao seu “sonho de si próprio” do que ao exterior.

Faz canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
É deixa as ervas naturais medrar.

A segunda estrofe reforça a ideia iniciada por Fernando Pessoa na primeira estrofe, nos três primeiros versos, Pessoa diz que devemo-nos misturar com a multidão, que devemos seguir a corrente, “Faz canteiros como os que outros têm”, é nossa obrigação plantar flores nos nossos jardins, tal como os outros fazem. Os três últimos versos dizem exatamente o contrário em relação ai interior/inconsciente. O “onde és teu”, é um lugar qua apenas nós devemos aceder e é nosso dever recalcar os sonhos e pensamentos mais íntimos, para que ninguém se aperceba da sua existência. É nesse local que tudo pode crescer livre, ou seja, que os sonhos podem crescer e se realizar.

Faz de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês…

Por fim a ultima estrofe, que revela estes dois mundos, o exterior e o interior, sendo indispensáveis um ao outro. “Faz de ti um duplo guardado”, cada um tem de atuar como um agente secreto, onde a sua missão é utilizar um disfarce para proteger a sua verdadeira identidade, o seu verdadeiro “eu”. Enquanto o exterior serve-se de uma aparência, indispensável para o quotidiano, é no interior onde o céu não é o limite, onde crescem sonhos e pensamentos, como se lhe dessemos adobo, mas que nunca podem ser revelados, pois se estes pensamentos saíssem para o exterior, seria como ver crescer ervas doninhas, no meio de jardins perfeitos cheios de flores harmoniosas.

Depois de analisar-mos o poema, verso a verso, é fácil entender a escolha de Fernando Pessoa, quanto ao título, este poema serve como um conselho por parte do autor, após tantos anos de vida, Pessoa, queria deixar a sua opinião do funcionamento do mundo. Assim, na minha opinião este poema, serve como uma chave para toda a leitura de Fernando Pessoa, sendo como uma introspeção que o autor faz a si próprio no fim da sua vida, parecendo até que adivinhava que se avizinhava a sua morte.

Maria Carmo

 

 

 

domingo, 25 de novembro de 2012

Analise dos poemas “o Infante” e “ Horizonte”

O “Infante” é o primeiro poema da segunda parte de Mensagem, este poema funciona como uma semente do que se seguirá. Este poema é dividido em três partes, a primeira remete apenas para o primeiro verso da primeira estrofe.
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” Neste verso, esta contido o conceito de homem. O simbolo do Homem universal, que realiza o sonho por vontade divina: ele reune todos as qualidades, virtudes e valores para ser o intermediario entre os homens e Deus. Este conceito também esta na mesma linha do conceito descrito por Camões nos Lusiadas, onde os homens honrosos alçancaram a imortalidade, pelo seu esforço e sofrimento.
A segunda parte do poema, vai desde o segundo verso da 1ª estrofe até ao fim da 2ª. D
Nesta é nós apresentado a vontade de Deus, o seu desejo e unir toda terra pelo mar, confiando essa misssão ao Infante,_”Sagrou-te, e foste desvendando a espuma”. O verso reforça a ideia de Infante D. Henrique como o herói mítico, aquele que Deus manipula quase como uma marioneta, o que obedece as suas ordens, cumprindo a missão que lhe é destinada, que consistia em desvendar os mares_”Que o mar unisse”_ e descobrir que a terra era redonda, _”E viu-se a terra inteira, de repente. Surgir redonda, do azul profundo”.
Na última parte do poema esta contida na última estrofe. Os dois ultimos versos do poema oscilam entre e euforia da constatação da grandeza do passado _ “cumpriu-se o Mar”_, o desencanto do presente _ “e o imperio se desfez”_ e o apelo à construção de um Portugal novo, numa já clara alusão ao mito do quinto Imperio_”Senhor, falta cumprir-se Portugal”. Este Imperio é de natureza espiritual e sera construido por homens purificados, ou seja, homens honrosos que Deus escolhe pelas suas grandezas e virtudes.

O Horizonte:

O poema “Horizonte” inicia-se com uma apóstrofe que evoca um mar anterior ao Portugal das descobertas. Partindo desde pressuposto, Pessoa sublinha, o contraste entre o mar desconhecido e assustador _”anterior a nós”_ onde “noite”, “cerração” e “misterio” têm uma conotação negativa e o mar novo, onde “coral”, “praias” e “arvoredos” têm uma conotação positiva. Nos dois ultimos versos da primeira estrofe há uma referência à beleza e o fascionio da conquista do “Longe” e ao valor oculto dos versos_ “o sul sidério/ Splendia sobre as naus de iniciação”, em que as viagens das descobertas não são apenas maritimas, mas viagens iniciativas, de demanda de um conhecimento superior.
Na segunda estrofe há uma descoberta progressiva e gradual do Longe: “ se aproxima”, “ergue-se”, “Mais perto, abre-se”, “no desenbarcar. há”. Fernando Pessoa sublinha que o abstrato concretiza-se em “encosta”, “arvores”, “sons e cores”, “aves, flores”, tudo o que foi descoberto.
Na ultima estrofe, é apresentada uma definição de o “sonho”. O Sonho é procurar alcançar o que esta mais além, é o esforço para chegar mais longe. Animado da “esp´ranca e da vontade”, conduz à conquista da “ Verdade” (a maiúscula reforça o absoluto da verdade etapa última de qualquer demanda). Visto que o sonho é aceder à
verdade, sendo que esta constitui o premio de quem por ela se esforça. O premio, a recompensa, refere-se aos “beijos merecidos” que esta relacionada com a Ilha dos Amores na epopeia camoniana. Onde esta ilha reprezenta o premio para aqueles homens honrosos que arriscaram a sua vida por um bem maior, os descobrimentos. Neste sentido a verdade é a recompensa dos Homens na Mensagem de Fernando Pessoa.

Maria Carmo

sábado, 13 de outubro de 2012

Canto IX - episódio de Leonardo




É no canto IX, que os portugueses chegam a ilha dos Amores, aqui Camões dá liberdade as paixões e aos desejos, descreve a ilha como um local paradisíaco que fora preparado pela deusa Vénus. É espantoso o cenário com que se deparam os marinheiros, onde havia todo o tipo de árvores e frutos onde a água era abundante e principalmente onde se encontravam as ninfas apaixonadas e instruídas por Vénus.  
Os marinheiros entram pelo mato, pensando que terão possibilidade de caçar, as ninfas fogem ensinadas por Vénus, sabem bem que, fazendo-se esquivas, atrairão ainda mais os marinheiros, mas pouco a pouco, vão se deixando agarrar, sorrindo e soltando gritinhos de susto. Leonardo, o símbolo do português infeliz nos amores,  homem com experiência no amor e que já tantas vezes sofrera males de amor. Leonardo suplica á sua ninfa que não lhe fuja, pois esta cansado de sofrer esta movida pela compaixão e palas palavras "bonitas" de Leonardo, realiza o desejo do seu "caçador", deixando-se agarrar. 


“ O ‘formosura indigna de aspereza
Pois desta vida te concebo a palma
Espero um corpo de quem levas a alma! “ (est.79)


As Nereidas deixam-se apanhar e toda a floresta murmura, mergulhando em amor e prazer. O poeta não descreve mais nada, este diz que é melhor experimentar o amor e quem não o puder fazer, então que o imagine.


“Melhor é experimenta-lo que julga-lo:
Mas julgue-o, quem não pode experimenta-lo” (est.83)



sábado, 6 de outubro de 2012

De que modo nas reflexões do poeta no final do canto VI estão presentes conceitos como honestidade, mérito e recompensa?


Depois da Deusa Vénus acalmar os ventos com as suas belas ninfas atraindo-os com palavras de amor, a tempestade termina, permitindo aos portugueses chegarem finalmente a Calecute. No fim do canto VI, após Vasco da Gama ter agradecido a deusa dos portugueses por mais uma vez os ter protegido, Camões termina este canto com as suas reflexões sobre o valor dos sacrifícios que fazem alcançar a fama. Na estrofe 96 deste canto Camões afirma que até os de espírito mais nobre se podem deixar corromper pelos prazeres momentâneos  que aqueles que se deixarem amolecer podem perder a sua vicissitude. Na estrofe 97, Camões afirma que é pelo trabalho afincado que se pude alcançar a honra e só é digno dessa honra quem primeiro sofrer. Esta honra não se alcança através da herança de antepassados, mas sim com sofrimento, só assim aquele que passou por isto e foi movido pela virtude, passará para um patamar superior não porque o deseja, mas porque actua de determinada maneira. Assim os conceito de mérito, recompensa e honestidade estão presentes nas reflexões do poeta, pois Camões prefere aqueles que se movem pela capacidade de luta e sofrimento, alcançando a eternidade pelo seu valor e feitos.     

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Canto V, dos Lusiadas

No canto V, dos Lusiadas, Vasco da Gama continua a sua narração ao rei de Melinde. Descreve cuidadosamente a viagem que o levou de lisboa até aquele lugar, dando uma particular importancia a alguns episodios, um desses episódio é o do marinheiro Veloso. Neste episódio, Fernão Veloso, um marinheiro “fanfarão” pouco dado a feitos heroicos mas conhecido pelo seu caracter humuristico e ironico, voluntaria-se para seguir os nativos com o objetivo de descobrir a sua terra. Desta forma e com um ar de confiança “ e de arrogante crê que vai seguro” avança pelo mato sem saber o que vai encontar. Mas passado algum tempo os seus companheiros vêm Veloso correr pelo mato até a praia seguido pelos nativos.
Se não fosse a intervenção de Vasco da Gama e dos seus companheiros, Veloso não teria regressado ao barco, foi já na nau que o lado humorista de Veloso se destacou, respondendo as piadas e risos dos marinheiros com alguma ironia: “ Disse então a Veloso um companheiro (começando-se todos a sorrir):
 _ Oula, Veloso amigo! Aquele outeiro é melhor de descer que se subir!
_  Si, é (responde o ousado aventureiro , mas quando eu para cá vi tantos vir daqueles cães, depressa um pouco vim, por me lembrar que estáveis cá sem mim”

Maria Carmo

Sera que a democracia em si mesma e por si só esta garantida pelo acto de votar?

Foi no dia 25 de Abril de 1974, que se deu a chamada revolução dos Cravos, esta revolução teve o objectivo de acabar com a ditadura e implementar a iguladade entre as classes. Portugal era considerado um país governado por uma ditadura, quer pela oposição, quer pelos oberservadores estrangeiros quer mesmo pelos proprios dirigentes do regime. Formalmente, existiam eleições, consideradas fraudulentas pela oposição, desrespeitandas pelo dever de impercialidade. Apesar de estas eleições serem alteradas, havia voto, mas isso não tapava os olhos do povo, os portugueses queriam um país que se adequa-se a Eurapa, queria dependencia, melhores condições de vida e ter direito a um desenvolvimento em termos culturais e sociais, os portugueses pretendiam um governo que permitisse a abertura das fronteiras. Antes do 25 de Abril a democracia de maneira nenhuma esta garantida pelo acto de votar, mas felismente isso mudou. Nos dias de hoje pude-se dizer que esse objetivo foi comprido, na minha opinião. Embora a crise que enfrentamos, o direito ao voto é essencial ainda que não concordemos com nenhum dos candidatos, e fundamental, porque votar em branco é idêntico a abdicar da independencia que é defendida pela nossa constituição. Antigamente o voto era algo restrito, actualmente é uma lei que abrange todas as classes sociais, mas infelismente tem sido desvalorizado o que leva a que as promessas que muitas vezes são esperadas pelo candidatos fiquem aquêm.
É o povo que constitui Portugal e o governo deve servir os portugueses, e não deve ser visto como uma forma de enriquecer, por isso os portugueses têm a responsibilidade de estar atentos as atitudes e projectos dos candidatos, pois é a partir do voto que conseguimos “expulsar” estes politicos corruptos e incompetentes. Porem votar conscientemente é dificil, mas os resultados são positivos, nesta democracia a conquista do povo que deve ser usada com responsabilidade, votar em qualquer um pude ter consequências nos proximos anos e sera tarde para arrependimentos.     

Maria Carmo

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sentimentos de culpa e remorso presente no Frei luís de Sousa:

“O sentimento de culpa é o sofrimento obtido após a reavaliação de um comportamento passado tido como reprovável por si mesmo. A base deste sentimento, do ponto de vista psicanalítico, é a frustração causada pela distância entre o que não fomos e a imagem criada pelo superego daquilo que achamos que deveríamos ter sido. Há também outra definição para sentimento de culpa, quando se viola a consciência moral (ou seja, quando pecamos e erramos), surge o sentimento de culpa.”

“A palavra remorso tem origem latina, vem de remorsus, particípio passado de remordere, que significa tornar a morder. Liga-se, portanto, a dilacerar, atacar, satirizar, ferir, torturar, atormentar. A própria etimologia da palavra já nos dá a ideia de como esse sentimento é doloroso e da angústia e até mesmo da vergonha que o acompanha. Isso vem da consciência de termos agido mal. Geralmente vem acompanhado de arrependimento, culpa, lamentação.  
O remorso é um sentimento sobre os acontecimentos e atitudes do passado. É a sensação do que não era para ser dito, do que não era para ser feito.”

Depois de ter esclarecido estes dois conceitos, poderei relacionar com o livro do Frei Luís de Sousa.
O Frei Luís de Sousa remota, para além dos clássicos franceses e italianos, as fortes gregas da tragédia. Enquanto naqueles se evidencia o conflito das personagens e dos sentimentos, particularmente da ambição e do amor, nestes sobressai quase sempre a intervenção de uma fatalidade transcendente aos homens indefesos. É uma fatalidade deste tipo que no Frei Luís de Sousa parece cair sobre os protagonistas. O Romeiro serve-se de portador: o aparecimento dele vem anular toda a sua vida que se erguera sobre o pressuposto á morte de D. João de Portugal, anular o segundo casamento da sua suposta viúva, e riscar da lista dos legalmente nascidos, a filha, que desse casamento nascera o passado que se julgara morto. E ninguém parece culpado, porque D. Madalena foi sempre fiel (salvo num sentimento intimamente reprimido e imponderado: o de se ter apaixonado por Manuel de Sousa, e sem que ele próprio o soubesse, quando era ainda casada com D. João), e seu marido um português exemplar. Á fatalidade nada resiste, nem mesmo os direitos da vida, que Maria nas cenas finais proclama:

Que Deus é este que esta nesse altar e que quer roubar o pai e a mãe a sua filha? (…) o outro (…) que se fique na cova ou que ressuscite agora para me matar?”

Mas, não impedia o seu protesto, Maria morre “de vergonha” como ela diz, consumindo a acção da fatalidade. A verdadeira acção da peça é a aproximação desta fatalidade, a presença cada vez mais palpável de um espectro, através dos temores de D. Madalena, das insinuações de Telmo Pais, dos sonhos de Maria. E ate o acto forte e exemplar de Manuel, incendiando patrioticamente a própria casa, serve para atrair a uma cilada do destino, obrigando a família a transferir-se para a casa do suposto morto.

Ao lado de Telmo Pais, que alias lhe serve por vezes de voz á sua consciência moral, resume a verdade a figura de D. Madalena, no seu esforço para recalcar um sentimento e esconde de si mesma a duvida que a inibe de gozar calmamente uma feliz vida. Mas que remorso e que duvida? Como nas tragédias gregas, o destino é desencadeado por uma única infracção dos costumes: aquela revolta afectiva sem consequências que D. Madalena, ainda em vida do primeiro marido, teve por Manuel de Sousa e que, subjectivamente, nunca lhe permite a certeza de tudo. Uma critica interior, talvez, ou pelo duplo complexo de culpa, inconsciente, de Telmo e D. Madalena, quer a ansiedade, e medo pegados á filha do segundo casamento. O senso do destino explicaria uma ânsia de expiar a culpa. Alias, como veremos, o sentimento de culpa surge persistentemente na obra de Garrett.
Há nesta obra duas tendências; por um lado uma “reclamação” da liberdade de amar, de corrigir, os erros conjugais evidentes, ao que se associam, pela boca da figura mais sonhadora, Maria, a exigência de “emendar o mundo”, por outro lado, acompanhando de remorsos, o sentimento religioso de um acontecimento superior, que não se encontra mais soluções para a morte injusta de Maria.     

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O conceito de Piedade na Tragédia

Tragédia é dás mais antigas obras literárias representadas num espaço próprio, o teatro, é um dos mais importantes géneros literários legados pela Grécia antiga. São as obras de autores como Shakespeare, ou Esquilo, e de outros autores que fazem surgir uma forma evoluída da Tragédia. O género trágico, em sua forma mais pura, e dolorosa. Constantes os vários conflitos dados entre as personagens, estas normalmente sendo “pessoas de bem”, ou seja, pessoas com grande respeito umas pelas outras, leais, com uma personalidade bondosa, os incidentes ao longo da tragédia tendem a despertar terror e piedade nas personagens. 

Sendo piedade um sentimento de compaixão, de dor pelos males que ocorrem as pessoas, de revolta pela injustiça, de um sentimento de impotência. Se este é o significado mais conhecido, existe outro, para mim todas as pessoas crêem em algo que pode não existir, os Cristãos acreditam em Deus, os muçulmanos em Alá, etc…. Seja como for, há fé, pois mesmo quando estamos em momentos mais difíceis como nos aguentamos? Logo partindo do ponto em que as pessoas acreditam que aja um sitio melhor para onde ir depois da morte, estas têm de se “comportar” como merecedores desse lugar, é aqui que entra o conceito de piedade, pois na minha opinião piedade é uma essência que Deus permitiu ao homem ter, e cabe a este saber usa-lo. O homem não pode pensar em ir para um lugar melhor depois da morte, o lugar a que os crentes chamam de paraíso, sem utilizar esta capacidade, sem estender a mão a uma pessoa necessitada, ou pelo menos tentar, porque é assim que funciona a piedade por vezes não é o acto, mas sim o pensamento, o sofrimento silencioso pelo outro.

Piedade na minha opinião é um conceito muito difícil de definir, eu tenho sempre presente uma questão que nunca saberei a resposta, será que nós temos piedade pelo acontece aos outros ou apenas garantimos algo em troca para nós?
Acredito que podemos ter piedade voluntaria para com os outros, mas penso que podemos estar por outro lado, involuntário, a pensar em nós, na medida que pensamos que ao ajudar uma pessoa esta fica em divida para connosco.
A piedade é, muitas vezes, um sentimento dos males nos males de outro. É uma hábil previsão das infelicidades que nos podem acontecer, amparamos os outros para os comprometer em relação a nós em ocasiões semelhantes, e estes serviços que lhes prestamos são, a bem dizer, bens que oferecemos a nós mesmos adiantadamente.  

Depois de dar a minha opinião, falarei do conceito de piedade na tragédia.
Sendo piedade um sentimento que as personagens sentem uns pelos outros, seja, em que eles são o motivo do sofrimento do outro, ou sejam apenas uma personagem exterior, este sentimento esta sempre presente ate ao fim da tragédia. Este sentimento vai para lá das personagens, nós, os espectadores não conseguimos ficar imunes a este tipo de sentimentos. Através de um curso de eventos envolvendo actos dolorosos ou fatais, criam piedade e medo (terror), isto envolve o conceito de Catarse. _”Catarse, significando “purificação”, “evacuação” ou “purgação”, refere-se á purificação das almas por meio se uma descarga, libertação emocional provocada por drama.”


Assim catarse permite uma mudança na pessoa, se um homem bom passa da má para a boa fortuna, nós não sentimos terror; se um homem bom passa da boa fortuna para a má fortuna, nós sentimos pena, e não terror; se um homem mau passar da boa fortuna para a má fortuna, nós ficamos felizes da vida; e se um homem mau passar da má para a boa fortunas, nós sentimos repugnância.”



Isto passa pelas emoções que nós, espectadores sentimos, dependendo das opções da personagens.
Mas o memo não se passa entre as personagens, pois sendo no inicio, uma personagem de bem, esta não muda apesar das circunstancias, posso dar o exemplo do livro Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, neste livro a personagem de João de Portugal, voltando a sua casa depois de terríveis anos e sabendo que a sua esposa era casada com outro homem, este não pensou em causar dor a ela ou ao homem que o tinha substituído, não, João de Portugal sabendo quanto sofrera a sua mulher com a suposta morte não quis causar outro desgosto a quem amava tanto, assim preferiu afastar-se e ocultar-se. Esta personagem preferiu a felicidade de sua mulher a sua, tendo piedade, pela dor que tanto lhe causou. Este exemplo fala de piedade no seu sentido mais puro, pensando nos males de outro, João de Portugal mostrou que não mudou, continuou a ser o homem respeitável e de bem que se conhecia. É claro que este sentimento serve para dar veracidade a uma tragédia, mas este conceito vai mais para além disso visto que as personagens têm reacções diferentes dos espectadores. E que este conceito ser visto de uma maneira mais intima, do que o seu conceito básico.  

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Palácio da lua de Paul Auster

Palácio da Lua”, aqui esta um livro que não me constou a ler, apesar de não conhecer o autor, Paul Auster passou a ter uma grande admiração da minha parte. A história centra-se no processo de crescimento do jovem Marco Fogg, a um passo do estado adulto. Um processo com que me identificai bastante. O Paul Auster retrata um jovem que nunca conheceu o pai, e mãe morre muito cedo, ainda ele é uma criança, e que acaba também por perder o único parente que ainda lhe resta, o tio. Tudo isto torna Marco num rapaz muito monótono. Contudo Fogg torna-se um jovem muito inteligente, e usa essa inteligência não para ter um futuro garantido, um bom emprego, mas para o seu próprio prazer, sendo esta uma das características que o torna num adolescente “anormal” ou seja, diferente. Fogg faz uma viagem ao longo do livro (reflexão) sobre si mesmo, onde transforma a própria vida na busca de respostas, na procura da sua identidade. As suas viagens, contudo, não são pelo mundo fora, mas através de si próprio, da sua natureza, às suas forças e fraquezas e aos mais básicos conteúdos da sua natureza humana. Mas não é só da sua vida que se trata. São vários os momentos em que o narrador se esquece de si próprio para nos contar a história dos personagens que cruzam o seu caminho: o tio Victor, com as suas excentricidades, Thomas Effing, o velho louco que se esconde de um passado intenso, Solomon Barber com os seus segredos e a história do seu fracasso.
O livro não só fala da procura da identidade, mas também da solidão humana, e dos seus efeitos nas pessoas. Sobre este assunto o autor da duas na vida, uma em que dá exemplos de personagens que vivem ao redor da solidão, e outro em que ultrapassam a solidão.
O livro traz uma importante mensagem, o autor dá a entender que a sociedade vive segundo regras, e quando alguém como Marco, tenta viver a sua vida segundo as suas expectativas e vontades, este é criticado e chega mesmo a ser rejeitado.
Por fim, a minha opinião, a maior mudança que se dá em Marco Fogg é o facto de este aprender a saber viver, no inicio este era apenas alguém a quem lhe tinha acontecido demasiadas coisas más, e não conseguia continuar a sua vida, no fim do livro isto muda, este aproveita-as coisas más tornando-se mais forte, e encontrando um significado a sua vida. O facto de ele no fim do livro se encontrar na mesma situação de o inicio do livro em que acaba sem dinheiro, sem casa, sem ninguém, mas tento pensando de maneira diferente, dando importância as coisas mais insignificantes. Este livro cativou me de um modo que não esperei, pelo modo como autor descreve as personagens, como fala de vida, da desgraça, da morte. Do modo como me fez pensar na vida, no qual não devemos viver como se deve, mas tentar viver a nossa maneira.

sábado, 5 de novembro de 2011

Capitulo IV (4º paragrafo)

Na passagem fala-se de pão e de homens, significando pão o mesmo que homens. Ao contrario dos outros comeres, como o peixe, a carne ou a fruta estes têm dias próprios para se comerem, enquanto o pão é o alimento do quotidiano, em que os homens não passam sem ele, e o comem com tudo. A passagem “ São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos”, Vieira quer dizer como é natural aos homens alimentarem-se do pão todos os dias, como é natural explorar, passar por cima e aproveitar-se dos mais pequenos, ou seja, dos pobres e mais inofensivos. O padre António Vieira, faz uma pergunta aos peixes, essa interrogação, cativa os seus ouvintes e reforça a verdade que quer mostrar e é uma maneira de introduzi-la neles. Ao ouvirem o discurso do padre António Vieira, os peixes de uma maneira trivial abanam a cabeça, não se conformado com o que acabaram se ouvir. Sendo desconhecidos os modos dos homens estes ficaram bastante admirados, pois entre eles não há injustiças ou maldades, os peixes estão habituados a viverem em paz , tendo a capacidade de serem livres. Os homens estão acostumados a um ambiente de brutalidade de uns para os outros, em que nem os grandes estão a salvo, pois a sempre alguém maior que não só os engole a eles como a outros iguais. Esta característica dos homens e anormal aos peixes, sendo eles quem tem o discernimento, e cuidado que os homens por direito deviam ter, em vez disso tornam-se homens ignorantes e vaidosos. O padre António Vieira tem como objectivo de mudar os homens, ou pelo menos faze-los pensar, mesmo que não haja  uma mudança rápida.  

sábado, 8 de outubro de 2011

A seguança e a policia

É nestes dias de crise e de pouca segurança, que o cidadão se questiona da acção da polícia. Não é preciso ser especialista em segurança pública para perceber que o crime atingiu níveis insuportáveis. Hoje, as vítimas de violência têm a sensação quase de alívio quando, num assalto, perdem a carteira ou o carro - e não a vida. Nos jornais lê-se regularmente, homens que são detidos por crimes efectuados, sendo presentes no tribunal saindo com medidas de coação “TIR”, termo de identidade e residência, o que não é mais do que a confirmação da sua morada. Nesta situação da não imputabilidade (responsabilidade) da justiça cada vez há mais crime, deixando um clima de grande insegurança no país.
A segurança é, juntamente com a educação, e a saúde, um dos pilares fundamentais de sustentação da sociedade
A autoridade esta relacionada com o medo, sem ele não há respeito. Mesmo em 1958 a policia tinha melhores condições, e eram tomados como homens sérios, prezados e venerados, enquanto agora são sempre os culpados pela injustiça, ou pela libertação de criminosos. Todavia nos dias de hoje, a polícia é sujeita a leis que os impedem de praticar o seu trabalho, deixando-os constrangidos a críticas. Como por exemplo a proibição da entrada da polícia nas residências, mesmo sabendo que os cidadãos correm perigo, leis deste tipo são alvos de comentários dando a polícia uma imagem degredada. Um dos responsáveis pala mudança da imagem da polícia são os midia, uma vez que dão um grande destaque a noticias em que os polícias foram negligentes, ignoram-no actos policiais bem sucedidos. São também estes que destorcem grande parte das notícias que passam para o publicou.       
O assunto das leis é seriamente protegido pelo governo, que alterna a seu agrado as leis, dando uma vantagem sobre os criminosos, concedendo mais confiança, sabendo que de certo modo há sempre maneira de virar a lei para seu lado. As leis actuais em actuação em Portugal dão ao criminoso muitos direitos e nenhuns deveres. Como o famoso caso da CASA PIA, onde alteraram o Código de Processo Penal, para beneficio próprio. Mas ao concretizarem esta mudança libertaram criminosos perigosos. Todavia os que se encontram na prisão contêm todas as regalias e benefícios que não deveriam ter. Por exemplo, possuírem certos materiais que muitos portugueses não desfrutam, como televisão, ginásio, …alem de receberem um montante monetário referente aos dias, ou anos que foram condenados. As vítimas dos seus crimes maioritariamente não têm sequer dinheiro para se alimentarem. 
Ao longo dos anos a policia tem sido desvalorizada, perdendo meios materiais e humanos entre as forças de segurança. De 2 em 2 anos são adquiridos novos carros, mas são para a segurança do governo e não para a segurança da população em geral. Todos os anos se reformam centenas de policias, porem nem todos os anos formam novos agentes, resumindo cada vez há menos policias. Face ao exposto não há duvida que Portugal protege mais o “criminoso”. No nosso país a segurança não é grande prioridade para o estado, visto que a polícia apesar de andar com armas não as pode usar, para o bem da comunidade, e no caso de se servir dela é acusado de homicida, é o caso de polícias que em serviço para salvaguardar a vida de terceiros, serviram-se da arma, encontrando-se em prisão. Então quem usa a arma para impedir um crime, é considerado perigoso, e é preso, mas quem usa a arma para assaltar um banco, ou uma pessoa é considerado demasiado “psicopata” para ir para a prisão. 
Em actos criminosos violentos, em que um homem é morto a sangue frio, o culpado pode dar a desculpa de um acto de loucura, demência ou passional.
Os infractores justificam seus crimes bárbaros, com naturalidade, culpando as condições em que foram criados pelos seus familiares. No entanto, existem pessoas de famílias humildes, que mesmo com a criação “livre” que tiveram, tornaram-se dignas e trabalhadoras. As soluções para tentar diminuir a espiral da brutalidade também podem ser encontradas no exterior. Criado em 1993, o projecto de Tolerância Zero, da prefeitura de Nova York, tinha desde o início o objectivo de combater os violentos crimes de homicídio por tráfico de drogas. Descobriu-se que o furto de veículos, um crime mais leve, tinha relação directa com os assassinatos. Combatendo-se o furto, caía também o número de mortes. Assim feito, ao mesmo tempo que uma limpeza nas delegacias eliminou centenas de policiais corruptos. São medidas que, em Portugal, ainda estão no campo da discussão. Quando finalmente se decidir pela acção, talvez já seja tarde. Por enquanto, a sociedade se pergunta, perplexa, como pode uma parte dela comportar-se de modo tão bárbaro.
Em concluso quanto menos autoridade a policia tiver, mais crimes irão decorrer. Numa sociedade tão desenvolvida é pena que se tenha perdido o seu respeito e autoridade pela polícia, sendo os maiores responsáveis aqueles que nos governam.   


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Tese do livro Alice no país das maravilhas
A história retida nas páginas do livro da Alice no país das maravilhas, passa-se num país inimaginável, por onde se entra pelo buraco do coelho. Um mundo maluco e estranho, onde os animais se comportam como humanos e onde o tempo e o tamanho físico são relativos.
Contudo, o mundo real esta presente na historia, quando Alice se senta a beira do rio junto a irmã, que é o mesmo lugar onde adormece e sonha a sua aventura. O país das maravilhas é o mundo real mas representado simbolicamente aos olhos duma criança.
Deste modo no livro prevalece a violência, o medo, a coação, as ameaças, numa estrutura hierárquica em que os mais fracos e vulneráveis são os mais exposto, talvez Alice se sinta como”obrigada” a certos modelos da sociedade, que vê serem realizados por todas as pessoas a sua volta. Por isso Alice pensa que os tem de fazer, sentindo-se revoltada.
Toda a sua aventura é um sonho, e como em todos os sonhos, as regras da realidade são quebradas. Para Alice este mundo é desorganizado, pois nada faz sentido, mas isso não quer dizer que ela ignore as dissemelhanças, pelo contrário, ao as descobrir, Alice reflecte mais sobre ela. Estas diferenças de interpretação das palavras utilizadas, ao longo da obra, tanto pela Alice como pelas outras personagens faz com que a medida que aparecem novos problemas e novas personagens aja também conflitos. Alice é uma rapariga bastante esperta e ela bem o sabe, por isso no país das maravilhas ela se esforça em se apresentar como uma rapariga dotada, isso faz com que Alice escolha algumas palavras que apesar de não ter a certeza do seu significado sobe são palavras importantes.
No caso das outras personagens, o uso das palavras não é por serem mais “pomposas” que é motivo de Alice, mas por não terem grande consideração pelo significado das palavras. No livro a palavra justiça aparece “ no sítio certo”, ou seja com o significado adequado, mas completamente superficial, como se não servisse para nada. No julgamento final o propósito é obter a justiça, mas normalmente no nosso mundo todas as pessoas são inocentes até que as provas provem o contrário, no livro todos são culpados até que se ache que não. O dicionário fala de justiça como a conformidade com o direito, mas na história o direito é só mais uma palavra inútil. Na obra apesar do rei ser o juiz e o jurado não é ele que tem o acto de julgar, mas sim a rainha, que pretende sempre fazer uma justiça por suas mãos, ou seja, castigar sem recorrer aos poderes competentes. Esta é uma das grandes diferenças que Alice observa, pois no nosso mundo seria impossível executar esta justiça, seria mesmo punido quem o praticasse.
“Posso explicar uma porção de coisas, mas não posso explicar a mim mesma”.
(Alice respondendo a Lagarta quando esta lhe pergunta (quem és tu?)

Lewis Carroll não escreveu uma história concisa. Alice no País das Maravilhas é um emaranhado de acontecimentos aleatórios, elementos figurativos, desejos ocultos, mensagens subliminares, averiguações sobre o carácter e a moral. A história não tem uma ordem, ela vai se deparando com personagens estranhas ao longo do caminho, algumas delas, inseridas na história sem um contexto propriamente dito (como a vida)

Alice passa por varias experiências, descobre coisas que não sabia, tem que lidar com situações novas, personagens esquisitas, de carácter duvidoso, que analisam o seu próprio carácter...
Como quando a Lagarta pergunta a Alice quem é ela, e não aceita uma resposta superficial, deixando Alice irritada por não saber como responder.
A interrogação do seu eu, começa quando a menina, por causa da sua altura, não consegue entrar num jardim misterioso que se esconde atrás de um “buraco de rato”.Tomando chás e comendo cogumelos (literalmente), Alice passa a aumentar e diminuir de tamanho com certa frequência. Este tipo de problemas fazem com que a menina direccione e encha o livro com diálogos bastante profundos para consigo mesma.
A obra de Lewis Carrol retrata principalmente as mudanças, os conflitos e as aprendizagens da adolescência. Alice entra na aventura sem pensar em nada, de repente, como se entra na adolescência. A questão do tamanho lembra-me que a adolescência está presente em todos os episódios da história:
Alice está sempre crescendo e diminuindo dependendo da situação e isso certas vezes é conveniente ou não para ela. No primeiro capítulo, Alice reduz de tamanho e parece se tornar insignificante. Essa transformação faz com que ela tenha medo de encolher até desaparecer, contudo também lhe permite entrar no jardim. Em alguns episódios, Alice cresce de forma desenfreada, porém sente-se angustiada pois este não é o seu tamanho real todavia grande, sente-se mais confiante no julgamento no final do livro. (A adolescência traz consigo vários sentimentos, dependendo da situação e da disposição.)
Muitas coisas não fazem sentido, seja uma cerimónia de chá, um jogo de croquete, as atitudes daqueles que mandam, um julgamento etc. Quando a menina querendo satisfazer a sua curiosidade, faz uma pergunta sincera, recebe complexas explicações que a deixam mais perdida ainda. Neste ponto de vista, o livro é uma livro infantil, que deve influenciar muito mais as crianças que os adultos, pois já perderam a capacidade de sentir sem racionalizar. Quem senão uma criança para conseguir imaginar um País de Maravilhas com coelhos preocupados com a hora, cartas de baralho fiéis a uma rainha que só ordena execuções, um chapeleiro, um arganaz e uma lebre em uma interminável cerimonia de chá ou um gato de Cheshire que desaparece e reaparece em partes?
Quando noutra passagem Alice pergunta o caminho ao Gato e este lhe responde que se ela não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.
Então eu pergunto: Então o nosso mundo não tem nada de maravilhoso? Quantas vezes perguntamo-nos, quem somos e para onde devemos ir? Quantas vezes encontramo-nos apressados, correndo de um lado para o outro, sempre contra o tempo? Quantas vezes ficamos aterrorizados vendo pessoas serem mortas por motivos banais? Quantas vezes somos movidos pela nossa curiosidade e saímos por ai seguindo um coelho branco, sem saber onde vamos chegar?