V - O TIMBRE
A Cabeça do Grifo/ O Infante D.Henrique
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
O poema tem como título, A Cabeça do Grifo - O Infante D.Henrique, este animal é um simbolo da condição de herói, assim, pudemos então concluir que o poeta considera o Infante como um herói.
O Infante D.Henrique era filho de D.João I e da rainha D.Filipa de Lencastre e foi um importante navegador da história de Portugal, tendo os seus marinheiros descoberto os Açores e a Madeira.
Este poema quanto à sua estrutura externa caracteriza-se por ter uma rima cruzada, emparelhada e interpolada.
"Com seu manto de noite e solidão"
O Infante D.Henrique encontra-se sozinho e era durante a noite que este gostava de desenhar os seus planos de descoberta.
"Tem aos pés o mar novo e as mortas eras"
O Infante tem aos seus pés o mar acabado de descobrir e a Idade das Trevas, "...mortas eras", acabou, devido ao avanço do conhecimento científico.
"O único imperador que tem, deveras"
Ele é "o único imperador" que tem o mundo nas suas mãos.
"O globo mundo em sua mão"
Apenas ele tem o conhecimento das terras descobertas e das que estão ainda por descobrir.
Uma Asa do Grifo/ D.João O Segundo
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra -
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu,
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
O Grifo pode também ser um símbolo do conhecido e do desconhecido, o que se pode aplicar a D.João II por ter ido além do que se conhecia na altura.
A cabeça do grifo é referente ao Infante D.Henrique, no entanto para as suas ideias/sonhos se realizarem, era necessário alguém que lhes desse continuidade, ou seja, eram precisas asas, sendo uma destas, D. João II, que assumiu a direcção da expansão marítima e teve o plano de dobrar o Cabo da Boa Esperança, de forma a obter a rota marítima para a Índia.
Nos Lusíadas, encontram-se algumas referências a este rei no canto V e VIII, mas não lhe é dada muita importância, porque simplesmente pôs em prática aquilo que outros, como o Infante D.Henrique, já tinham pensado, sendo dessa forma mais fácil seguir as suas "pegadas".
Na 1ªestrofe é destacado o poder da vontade, como é exemplo logo no primeiro verso, "Braços cruzados, fita além do mar", que quer dizer que D.João II não está a usar a força, mas sim a vontade para encontrar o caminho marítimo para a Índia.
"Promontório"
É o limite referido nos dois últimos versos, "O limite da terra a dominar/O mar que possa haver além da terra" e que ele próprio o tenta exapndir.
2ª Estrofe
"formidável vulto solitário"
É um elogio de Pessoa, a todos os heróis solitários de Portugal, pois são estes que lutam a favor de Portugal.
Os últimos três versos referem-se ao facto de, D.João II ter ido à descoberta por mares nunca antes navegados e terras que eram também desconhecidas. O que faz com que o mundo tenha medo que este rei, devido à sua vontade descubra os mistérios deste, "E parece temer o mundo vário/Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu."
Alunos do 11ºE da Escola Secundária Quinta do Marquês no ano lectivo de 2010-11
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sábado, 1 de dezembro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Será que a Democracia,em si mesma, e por si só está assegurada pelo acto de votar?
Quando se pensa numa democracia, associamos a um regime político livre onde todos são iguais, onde cada um pode ter a sua opinião, sem ser “castigado por isso” e tem liberdade de escolher a sua orientação politica, podendo assim, votar nesse mesmo partido.
Mas será que o simples acto de irmos até a uma Mesa de voto e votarmos no partido que queremos ver no poder, nos garante a Democracia? Na minha opinião, não.
Um dos motivos para o voto não poder garantir a democracia é por puder haver uma fraude eleitoral, como à pouco tempo aconteceu na Rússia para a eleição do Presidente deste país. Assim, ao haver este tipo de fraude, não pudemos dizer que estamos numa democracia, pois o político que chegou ao poder não foi escolhido livremente nem pela grande maioria da população como seria de esperar.
Outro dos motivos para que na minha opinião, o voto não seja uma forma totalmente segura de assegurar um regime político, é porque, mesmo que a pessoa que tenha subido ao poder, tenha sido escolhida pela grande maioria da população, quer por se identificarem com as suas ideologias políticas quer pelo seu programa eleitoral, isto não quer dizer que esta cumpra aquilo que disse na sua totalidade, como pudemos ver em alguns casos da nossa actualidade. Assim o político que for eleito, pode não cumprir o que disse, levando a que o povo não se reveja naquela pessoa que está no poder, o que pode levar a diversas manifestações e revoltas.
Concluindo, a principal forma de garantir que uma democracia seja assegurada é que o povo participe activamente nela, quer mostrando o seu agrado ou descontentamento pelas medidas políticas tomadas.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Resumo da aula passada, 17 de Fevereiro
Na passada aula do dia 17 de Fevereiro, a aula teve como tema central a existência das pessoas e a consciência das crianças. Estes dois temas, surgiram devido ao triplo homicidio que ocorreu em Beja, onde um homem matou a sua mulher, filha e neta à catanada.
Relacionamos a noticia do homicidio com o tema da existência das pessoas, pois ao ouvirmos esta noticia pensamos se o sujeito que cometeu este crime pode mesmo ser considerado uma pessoa, como nós. Chegamos à conclusão que este homem pode ser considerado uma pessoa como nós e que quando nascemos todos nós temos instintos básicos, ou seja, a nossa face mais selvagem, mas ao longo da nossa vida nós vamos aprendendo a controlá-la com a ajuda da sociedade que nos envolve, esta face nunca é completamente esquecida, apenas controlada, mas em certos casos esta faz-se notar de uma forma mais explícita, como foi o caso deste homem.
Quanto ao tema da consciência das crianças, haviam duas posições, uma que defendia que estas não tinham consciência dos seus actos e que algumas das suas atitutes não eram feitas por mal, outra que dizia que todas as crianças nascem más, mas que ao longo da sua vida vão controlando este seu lado.
Na minha opinião, todas as crianças nascem más e tem consciência das suas atitudes, mas ao longo da sua vida vão aprendendo que este seu lado não pode ser usado no seu dia-a-dia, que tem de ser posto de lado e que o devem controlar.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Terror na Tragédia
Segundo o dicionário, Tragédia é uma peça teatral cuja acção é de índole dramática e cujo desfecho é funesto; cena triste; desgraça. Terror é um grande medo; pavor pânico; perigo; o que mete medo. Na minha opinião, estes dois conceitos podem estar relacionados de algumas formas.
Por exemplo, quando nos acontece uma “tragédia” temos sempre medo, porque fomos surpreendidos por uma dada situação ou acontecimento com o qual não contávamos e não gostamos, além de que tememos que se repita. Ou seja, ficamos aterrorizados, o que nos leva a ficar inseguros e em sofrimento, pelo menos durante algum tempo.
Para além dos acontecimentos pessoais de cada um, na actualidade mundial, ainda perduram os efeitos trágicos de uma célebre frase de Osama Bin Laden: “O terror contra a América é louvável porque se destina a responder à injustiça e a obrigar a América a cessar o seu apoio à América, que a todos nos atinge.”
Contudo, tal como a paz de espírito, a felicidade (ou os momentos felizes) e a alegria, a desgraça, o sentimento de perigo e o medo também fazem parte da existência humana e é importante sabermos lidar com isso. Daí que várias formas de arte reconheçam ambos os sentimentos. Por exemplo, no caso do quadro do pintor norueguês Edvard Munch, "O Grito", parece que vemos uma pessoa em desespero, isolada das restantes, soltando um grito que até pode não ser ouvido por ninguém a não ser por ela própria, mas que poderá servir para a “aliviar” de um sentimento de impotência face a uma solução que não encontra para resolver algum problema.
Outra das formas que considero poder relacionar estes dois conceitos é através da escrita. Para além de ter vindo a ser retratada em muitas obras, desde a sátira grega, e ter tido a sua origem no contexto do teatro, refiro o exemplo que nos é dado por Almeida Garrett, na sua obra “Frei Luis de Sousa”, em que o terror ao ser usado na tragédia, tem como função apelar aos sentimentos de piedade e compaixão dos leitores para com as personagens. Nesta obra, pretende-se transmitir um ambiente de tragédia com um desenlace trágico, fatal. Isso é reforçado pelo facto de a acção ser mais sintética do que em outras obras, os personagens serem poucos e nobres, o que nos leva a pressentir que algo irá acontecer.
Ainda no âmbito da escrita, saliento igualmente Camilo Castelo Branco, um escritor ligado ao Romantismo, cujos romances transmitem um clima de tragédia e de fatalismo (características, entre outras, do Romantismo próximo do Realismo), misturados com algum espírito crítico e sátira. A par com esse ambiente trágico e dramático, Camilo Castelo Branco também incluiu em algumas das suas obras rancores, ódios, espírito de vingança, o fatalismo, o que nos leva a pensar que algumas das suas personagens vivessem com o terror de serem vingados por crimes realizados por antepassados.
Por exemplo, quando nos acontece uma “tragédia” temos sempre medo, porque fomos surpreendidos por uma dada situação ou acontecimento com o qual não contávamos e não gostamos, além de que tememos que se repita. Ou seja, ficamos aterrorizados, o que nos leva a ficar inseguros e em sofrimento, pelo menos durante algum tempo.
Para além dos acontecimentos pessoais de cada um, na actualidade mundial, ainda perduram os efeitos trágicos de uma célebre frase de Osama Bin Laden: “O terror contra a América é louvável porque se destina a responder à injustiça e a obrigar a América a cessar o seu apoio à América, que a todos nos atinge.”
Contudo, tal como a paz de espírito, a felicidade (ou os momentos felizes) e a alegria, a desgraça, o sentimento de perigo e o medo também fazem parte da existência humana e é importante sabermos lidar com isso. Daí que várias formas de arte reconheçam ambos os sentimentos. Por exemplo, no caso do quadro do pintor norueguês Edvard Munch, "O Grito", parece que vemos uma pessoa em desespero, isolada das restantes, soltando um grito que até pode não ser ouvido por ninguém a não ser por ela própria, mas que poderá servir para a “aliviar” de um sentimento de impotência face a uma solução que não encontra para resolver algum problema.
Outra das formas que considero poder relacionar estes dois conceitos é através da escrita. Para além de ter vindo a ser retratada em muitas obras, desde a sátira grega, e ter tido a sua origem no contexto do teatro, refiro o exemplo que nos é dado por Almeida Garrett, na sua obra “Frei Luis de Sousa”, em que o terror ao ser usado na tragédia, tem como função apelar aos sentimentos de piedade e compaixão dos leitores para com as personagens. Nesta obra, pretende-se transmitir um ambiente de tragédia com um desenlace trágico, fatal. Isso é reforçado pelo facto de a acção ser mais sintética do que em outras obras, os personagens serem poucos e nobres, o que nos leva a pressentir que algo irá acontecer.
Ainda no âmbito da escrita, saliento igualmente Camilo Castelo Branco, um escritor ligado ao Romantismo, cujos romances transmitem um clima de tragédia e de fatalismo (características, entre outras, do Romantismo próximo do Realismo), misturados com algum espírito crítico e sátira. A par com esse ambiente trágico e dramático, Camilo Castelo Branco também incluiu em algumas das suas obras rancores, ódios, espírito de vingança, o fatalismo, o que nos leva a pensar que algumas das suas personagens vivessem com o terror de serem vingados por crimes realizados por antepassados.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
" O Grande Gatsby"
“O Grande Gatsby” foi escrito por Francis Scott Fitzgerald em 1925 e retrata principalmente o sonho americano.
É um livro bastante popular nos EUA, tendo sido adaptado ao cinema.
A acção decorre em Nova Iorque e Long Island no Verão de 1922. Existem cinco personagens, Nick Carraway, sendo este o narrador; Jay Gatsby; Daisy e Tom Buchanan e Jordan Baker.
Este livro retrata a vida de Jay Gatsby do ponto de vista de Nick, retrata também os “Loucos Anos 20” que foi um período de grande prosperidade para os EUA.
Gatsby é um homem rico e misterioso que está constantemente a dar festas em sua casa. Ele tem como principal objectivo reencontrar o seu amor perdido de alguns anos atrás, Daisy, as festas de Gatsby pretendem chamar a atenção desta que vive do outro lado da baía. Podemos relacionar esta parte do livro com o sonho americano, pois uma das caracteristicas que podemos atribuir a este sonho é, lutar contra todas as adversidades, quando não há qualquer tipo de esperança. Assim, esta relação entre Gatsby e Daisy e o sonho americano é que quando aquele a conheceu era pobre e lutou e fez de tudo para se tornar rico, no entanto não foi da melhor forma, pois grande parte da sua fortuda vem da venda de alcool que nesta altura era proibida nos EUA (“Lei Seca”) e de outras actividades ilegais, esta obessão por querer ser rico deve-se ao facto de ele querer o amor de Daisy de volta e pensar que desta forma será muito mais fácil conquistá-la. Gatsby vive assim na ilusão de reviver o passado e querer alterá-lo.
Outra relação que podemos encontrar entre esta história e o sonho americano é que o sonho de Gatsby por Daisy é corrompido pelo dinheiro e desonestidade, pois estes não ficam juntos, assim como o sonho americano de felicidade e individualismo se tornou meramente em riqueza material, o que faz com que tanto o sonho de Gatsby como o sonho americano se desintegrem. Como o próprio titulo diz, “O Grande Gatsby”, este apenas é considerado de “Grande” porque ele tentou transformar os seus sonhos em realidade.
Outro dos temas abordados neste livro são as classes sociais e a sua divisão que é ilustrado pelos locais onde vivem, East Egg, onde vivem aqueles que sempre tiveram de dinheiro, através de heranças, que é onde vive Daisy e West Egg, onde vivem os novos ricos e seguidores do sonho do sucesso, onde vive Gatsby.
Deste livro, retiro principalmente duas frases, são estas, “As impressões nem sempre são correctas, num mundo de aparências”, que se pode interpretar em como naquela altura, e ainda hoje, apenas interessava a aparência exterior das pessoas e os bens que possuiam, fazendo-se assim a sua caracterização. A outra frase que retiro deste livro é aquele com que o livro acaba, “ Assim vamos persistindo como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado”, que podemos de certa forma dividir em duas partes, a primeira “Assim vamos persistindo como barcos contra a corrente” que fala dos “loucos anos 20” em que as pessoas bem nascidas podiam aproveitar a vida ao máximo ou as que não tinham o mesmo berço tinham o sonho e a possibilidade de se fazerem assim mesmo (self made man); a segunda parte, “... incessantemente levados de volta ao passado” que quer dizer que no final da década de 20 todo este ambiente de festa acaba com a crise da bolsa americana, parecida com a dos dias de hoje e com isso, acaba o sonho.
sábado, 8 de outubro de 2011
As Aparências Iludem
Desde cedo que ouvimos falar em como as aparências iludem e de como não devemos julgar as pessoas pelo que aparentam ser exteriormente, mas sobretudo pelo que são interiormente, pelo seu potencial, pelo seu conhecimento, pelas suas competências, pelos seus princípios e valores, pela sua formação cívica, pelas suas acções. Mas quantos de nós é que julga assim os outros no seu dia-a-dia? Atrevo-me a dizer, muito poucos, ou até mesmo nenhuns o fazem sempre e com convicção.
Sempre que vimos alguém na rua, que tenha um aspecto exterior “fora do normal” temos logo a tendência para lhe apontar o dedo (e não é que muitas vezes até fazemos este gesto mesmo?), rir e fazer comentários a seu respeito – “Meu Deus, o que é que deu naquele?”, “Deve ter algum problema!”, “Que horror!”... Enfim, até utilizamos termos contrários ao seu significado. Não é que apelamos a “Deus” quando supostamente é uma entidade fraterna e tolerante segundo a moralidade cristã? Achamos que haverá ali algum “problema” quando na grande maioria das vezes nem conhecemos a vida desta pessoa, a sua história, os motivos que a levaram a apresentar-se desta forma, que para nós é tão “fora do normal”? Achamos muitas vezes um “horror” algo que esteticamente é subjectivo, pois o conceito de belo depende de pessoa para pessoa e não é generalista.
Temos diversos casos destas situações, desde pessoas que têm tatuagens por todo o corpo, piercings ou até mesmo os proprios travestis. Vou abordar estes dois exemplos, que me deixaram a pensar recentemente.
Pensemos no caso de um homem que passa por nós na rua e que tem tatuagens por todo o corpo. Desde logo, começamos a olhar fixamente para ele e analisar o tipo de desenhos, cada promenor do seu corpo, a seguir, começamos a opinar com a pessoa que estiver ao nosso lado, de como todas aquelas tatuagens são feias ou desnecessárias, que tornam o corpo feio, que até lhe dão um ar rebelde ou mesmo agressivo, que ele deve ser um criminoso e que deve ter um passado obscuro, ou seja, para nós esta pessoa será um marginal. Agora pensemos que esta mesma pessoa noutra situação, não se apresenta à nossa frente com as partes do corpo tatuadas à vista, mas que veste uma bata branca e tem um estétoscopio ao pescoço. É um médico. E pensamos: “ é um doutor”, “sabe muito”, “está aqui para nos salvar a vida”. Quando o vemos no hospital ou no consultório, apresentado como os médicos se apresentam, sentimos um grande respeito por ele e alívio em sermos tratados por alguém com esta imagem.
Quando existem pesssoas que viram este mesmo homem tatuado e são seus doentes, se o considerarem um bom profissional poderão continuar a tê-lo como seu médico, ainda que possam caracterizá-lo, também, pelas suas tatuagens (como se tal influenciasse o desempenho do homem enquanto médico!), mas em vez de troçar e de se afastarem dele, poder-se-ão condescender e fingir que aceitam todas aquelas tatuagens. Logo, será o argumento “tens tatuagens em todo o teu corpo, por isso, já não és bom profissional naquilo que faças” um argumento suficientemente válido? Ou neste caso, “tens tatuagens em todo o teu corpo, por isso, já não és bom médico”, um argumento aceitável para que este profissional já não nos possa salvar a vida?
Agora pensemos no caso de um travesti. Estamos nós, muito bem num local público da cidade, quando de repente, vemos uma pessoa que dá bastante nas vistas, muito alta, uma grande cabeleira loira e vistosa, vestida com camisa e casaco que parecem caros, saia pelo joelho e de sapatos de saltos altos, tal e qual como as mulheres se vestem habitualmente na nossa cultura ocidental, quando a sua profissão assim o aconselha.
Se considerassemos uma mulher, seria uma pessoa aparentemente normal, sem qualquer problema, que podia chamar a atenção de uma ou outra pessoa pela sua beleza, elegância e/ou indumentária. Mas e se esta pessoa, que para nós é bem apresentada, após repararmos melhor, fosse na realidade, um homem, um travesti? Nesse caso a nossa avaliação mudaria. Agora, e se essa “mulher” fosse a presidente de uma conceituada marca estrangeira? Provavelmente, ser-nos-iam apresentadas duas situações completamente diferentes: a primeira era que se fosse mesmo do género feminino ficariamos bastante orgulhosos em ter uma mulher portuguesa a ocupar um cargo de tamanho prestigio internacional e comentaríamos com os nossos amigos, familiares e colegas que vimos aquela mulher que é a Presidente daquela marca que todos nós gostamos. Mas se esta “mulher” que nós vimos fosse na realidade do género masculino, neste caso, um travesti, a situação teria um contorno diferente. Talvez começassemos desde logo a criticar, que uma pessoa “dessas” nem devia ocupar um cargo tão importante, porque “não o merece” – já que nem se define sexualmente - que de certeza que não é tão “boa” a fazer esse trabalho como outros profissionais, questionariamos as suas habilitações para o cargo e que para o ocupar então deveria ter recorrido a algum favor... Enfim, passariamos a já não sentir orgulho da pessoa, nalguns casos existiria choque e revolta para com esta situação e ao revelá-la a outros, passar-se-ia a apontar mil e um defeitos pessoais e profissionais a esta pessoa.
E se os defeitos que apontamos ao travesti, como o de não ser competente nesse trabalho, de não dever ter as habilitações necessárias para o mesmo e de ter recorrido a cunha para ocupar este cargo importante, fossem os “defeitos” que efectivamente uma mulher poderia ter, mas que pelo facto de ser do género feminino, nos orgulharia do cargo? Defenderíamos o pressuposto da igualdade de direitos entre homens e mulheres e até o sistema de quotas!
Mas e se aquela pessoa que é travesti se esforçou, batalhou contra todos os obstáculos que lhe foram postos à frente, foi aquele que realmente mereceu aquele trabalho, será que aí a situação se revertia? Na minha opinião, não. No caso da mulher, a sociedade tenderia a fechar os olhos a esses “tão pequenos e irrelevantes promenores”, como o de não ter habilitações suficientes e de recorrer a cunhas para atingir o cargo que tanto queria, porque afinal é isso que nos acostumámos a ver acontecer; já no caso do travesti se soubessemos o quanto competente terá sido e o quanto se esforçou para obter aquele cargo, para nós, para a nossa sociedade, isso não seria relevante porque sexualmente ele não passaria de alguém que não se define e imita outro género.
Com estes exemplos, acho que a sociedade devia mudar, mas para isso acontecer é necessário que, em primeiro lugar, nós próprios mudemos de mentalidade. Porque se cada um de nós começar a pensar de maneira diferente, se olharmos para os outros enquanto pessoas, se encararmos cada história como uma história diferente, se entendermos que ninguém é igual a ninguém, se considerarmos que não existe uma pessoa “normal” nem uma pessoa “fora do normal” e que isso são apenas rótulos, totalmente subjectivos, pois cada um tem a liberdade e o direito de escolher como quer ser e viver, como vai ser e quais serão as formas de se afirmar enquanto pessoa - quer através de tatuagens, piercings ou mudando de sexo - e que essa será uma forma totalmente digna de o fazer, desde que não cause sofrimento a ninguém, aí quando a mentalidade conservadora de cada um de nós passar a ser mais tolerante, talvez a sociedade se altere e os seus periodos de maior crise social se apaziguem. Porque como diz o ditado popular, “as aparências iludem”, há que conhecer a realidade das aparências e o que são aparências irreais.
Sempre que vimos alguém na rua, que tenha um aspecto exterior “fora do normal” temos logo a tendência para lhe apontar o dedo (e não é que muitas vezes até fazemos este gesto mesmo?), rir e fazer comentários a seu respeito – “Meu Deus, o que é que deu naquele?”, “Deve ter algum problema!”, “Que horror!”... Enfim, até utilizamos termos contrários ao seu significado. Não é que apelamos a “Deus” quando supostamente é uma entidade fraterna e tolerante segundo a moralidade cristã? Achamos que haverá ali algum “problema” quando na grande maioria das vezes nem conhecemos a vida desta pessoa, a sua história, os motivos que a levaram a apresentar-se desta forma, que para nós é tão “fora do normal”? Achamos muitas vezes um “horror” algo que esteticamente é subjectivo, pois o conceito de belo depende de pessoa para pessoa e não é generalista.
Temos diversos casos destas situações, desde pessoas que têm tatuagens por todo o corpo, piercings ou até mesmo os proprios travestis. Vou abordar estes dois exemplos, que me deixaram a pensar recentemente.
Pensemos no caso de um homem que passa por nós na rua e que tem tatuagens por todo o corpo. Desde logo, começamos a olhar fixamente para ele e analisar o tipo de desenhos, cada promenor do seu corpo, a seguir, começamos a opinar com a pessoa que estiver ao nosso lado, de como todas aquelas tatuagens são feias ou desnecessárias, que tornam o corpo feio, que até lhe dão um ar rebelde ou mesmo agressivo, que ele deve ser um criminoso e que deve ter um passado obscuro, ou seja, para nós esta pessoa será um marginal. Agora pensemos que esta mesma pessoa noutra situação, não se apresenta à nossa frente com as partes do corpo tatuadas à vista, mas que veste uma bata branca e tem um estétoscopio ao pescoço. É um médico. E pensamos: “ é um doutor”, “sabe muito”, “está aqui para nos salvar a vida”. Quando o vemos no hospital ou no consultório, apresentado como os médicos se apresentam, sentimos um grande respeito por ele e alívio em sermos tratados por alguém com esta imagem.
Quando existem pesssoas que viram este mesmo homem tatuado e são seus doentes, se o considerarem um bom profissional poderão continuar a tê-lo como seu médico, ainda que possam caracterizá-lo, também, pelas suas tatuagens (como se tal influenciasse o desempenho do homem enquanto médico!), mas em vez de troçar e de se afastarem dele, poder-se-ão condescender e fingir que aceitam todas aquelas tatuagens. Logo, será o argumento “tens tatuagens em todo o teu corpo, por isso, já não és bom profissional naquilo que faças” um argumento suficientemente válido? Ou neste caso, “tens tatuagens em todo o teu corpo, por isso, já não és bom médico”, um argumento aceitável para que este profissional já não nos possa salvar a vida?
Agora pensemos no caso de um travesti. Estamos nós, muito bem num local público da cidade, quando de repente, vemos uma pessoa que dá bastante nas vistas, muito alta, uma grande cabeleira loira e vistosa, vestida com camisa e casaco que parecem caros, saia pelo joelho e de sapatos de saltos altos, tal e qual como as mulheres se vestem habitualmente na nossa cultura ocidental, quando a sua profissão assim o aconselha.
Se considerassemos uma mulher, seria uma pessoa aparentemente normal, sem qualquer problema, que podia chamar a atenção de uma ou outra pessoa pela sua beleza, elegância e/ou indumentária. Mas e se esta pessoa, que para nós é bem apresentada, após repararmos melhor, fosse na realidade, um homem, um travesti? Nesse caso a nossa avaliação mudaria. Agora, e se essa “mulher” fosse a presidente de uma conceituada marca estrangeira? Provavelmente, ser-nos-iam apresentadas duas situações completamente diferentes: a primeira era que se fosse mesmo do género feminino ficariamos bastante orgulhosos em ter uma mulher portuguesa a ocupar um cargo de tamanho prestigio internacional e comentaríamos com os nossos amigos, familiares e colegas que vimos aquela mulher que é a Presidente daquela marca que todos nós gostamos. Mas se esta “mulher” que nós vimos fosse na realidade do género masculino, neste caso, um travesti, a situação teria um contorno diferente. Talvez começassemos desde logo a criticar, que uma pessoa “dessas” nem devia ocupar um cargo tão importante, porque “não o merece” – já que nem se define sexualmente - que de certeza que não é tão “boa” a fazer esse trabalho como outros profissionais, questionariamos as suas habilitações para o cargo e que para o ocupar então deveria ter recorrido a algum favor... Enfim, passariamos a já não sentir orgulho da pessoa, nalguns casos existiria choque e revolta para com esta situação e ao revelá-la a outros, passar-se-ia a apontar mil e um defeitos pessoais e profissionais a esta pessoa.
E se os defeitos que apontamos ao travesti, como o de não ser competente nesse trabalho, de não dever ter as habilitações necessárias para o mesmo e de ter recorrido a cunha para ocupar este cargo importante, fossem os “defeitos” que efectivamente uma mulher poderia ter, mas que pelo facto de ser do género feminino, nos orgulharia do cargo? Defenderíamos o pressuposto da igualdade de direitos entre homens e mulheres e até o sistema de quotas!
Mas e se aquela pessoa que é travesti se esforçou, batalhou contra todos os obstáculos que lhe foram postos à frente, foi aquele que realmente mereceu aquele trabalho, será que aí a situação se revertia? Na minha opinião, não. No caso da mulher, a sociedade tenderia a fechar os olhos a esses “tão pequenos e irrelevantes promenores”, como o de não ter habilitações suficientes e de recorrer a cunhas para atingir o cargo que tanto queria, porque afinal é isso que nos acostumámos a ver acontecer; já no caso do travesti se soubessemos o quanto competente terá sido e o quanto se esforçou para obter aquele cargo, para nós, para a nossa sociedade, isso não seria relevante porque sexualmente ele não passaria de alguém que não se define e imita outro género.
Com estes exemplos, acho que a sociedade devia mudar, mas para isso acontecer é necessário que, em primeiro lugar, nós próprios mudemos de mentalidade. Porque se cada um de nós começar a pensar de maneira diferente, se olharmos para os outros enquanto pessoas, se encararmos cada história como uma história diferente, se entendermos que ninguém é igual a ninguém, se considerarmos que não existe uma pessoa “normal” nem uma pessoa “fora do normal” e que isso são apenas rótulos, totalmente subjectivos, pois cada um tem a liberdade e o direito de escolher como quer ser e viver, como vai ser e quais serão as formas de se afirmar enquanto pessoa - quer através de tatuagens, piercings ou mudando de sexo - e que essa será uma forma totalmente digna de o fazer, desde que não cause sofrimento a ninguém, aí quando a mentalidade conservadora de cada um de nós passar a ser mais tolerante, talvez a sociedade se altere e os seus periodos de maior crise social se apaziguem. Porque como diz o ditado popular, “as aparências iludem”, há que conhecer a realidade das aparências e o que são aparências irreais.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Tese sobre o livro "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas"
Neste livro de “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll tudo se passa numa dimensão entre o mundo real e o mundo da fantasia, onde os animais falam e têm atitudes humanas. Alice é uma criança do mundo real mas com pensamentos e sonhos extraordinários, que embora possam existir na realidade, fazem parte da sua fantasia.
Este livro tem como principais perguntas, “quem sou eu?” ; “como sou eu?” e “o que sou eu?”. Ao longo do livro, Alice tenta descobrir a resposta a todas estas perguntas, sem sucesso. Quando é confrontada pela lagarta com a pergunta “Quem és tu?”, Alice não consegue responder e sente-se confundida com tantas mudanças físicas por que tem passado, como o seu aumento e a sua diminuição constante de tamanho e a única certeza que tem é a imagem que tem do mundo real, ou seja antes de ter entrado na toca do coelho.
Assim, apesar de saber que está num mundo fantástico, Alice não se afasta totalmente do mundo real, continuando com as suas atitudes de criança, o que a leva a nunca, estar satisfeita com o tamanho que tem, querendo sempre mudar, pois cada tamanho (do mundo dos sonhos) tem uma consequência que Alice inicialmente gosta e lhe convém para conseguir algo, mas quando se encontra na nova situação, deparam-se-lhe novas dificuldades para poder fazer o que se lhe é “pedido”. Podemos encarar este exemplo como uma espécie de metáfora para as decisões que tomamos no nosso dia-a-dia (real), pois embora num primeiro momento possamos ficar satisfeitos (real e fantasioso), cada uma leva sempre a uma consequência, que acabará por poder ser do nosso agrado ou não (real).
Outro tópico que é bastante importante neste livro, é a ideia de justiça, o seu significado e a forma de como esta é exercida no mundo real e no mundo de fantasia (o País das Maravilhas).
Se formos procurar ao dicionário (do mundo real) o conceito de justiça encontramos o seguinte significado: “conformidade com o direito; poder judicial; equidade”… mas no País das Maravilhas tudo é diferente, logo este significado não é o mesmo nos dois mundos. Assim neste mundo de faz de conta, a palavra justiça é apenas utilizada por ser uma palavra, que como Alice gosta de dizer, “pomposa”e muitas vezes confundida como uma forma de obter algo que se quer. Como se refere no poema do rato, no III capítulo do livro, trata-se sobretudo de uma forma de Fúria (o gato) comer o rato de cabidela ou de caldeirada, algo que no nosso mundo (pelo menos teoricamente!) não seria aceitável, pois não se pode exercer justiça quando está subjacente servir para incriminar alguém ou tirar partido dela ou de uma situação.
Já durante o julgamento sobre quem roubou as tartes, presente nos capítulos XI e XII, a justiça é exercida apenas pelo Rei, que durante todo o julgamento acusa o Valete de ser o culpado do roubo, não querendo saber se existem ou não provas contra este. Neste caso a acusação contra o Valete resulta apenas do “porque sim”, justificação esta que no mundo real não basta e não é aceite (nem mesmo as crianças do mundo real se convencem com esta resposta!). Tanto neste julgamento feito pelo rei como na vontade de Furia em comer o rato, a aplicação da justiça baseia-se no interesse em que o acusado tenha algum tipo de pena e assim se exerce também o poder do mais forte sobre o mais fraco. Na nossa realidade, para haver acusação pressupõe-se haver provas contra determinada pessoa ou situação.
Assim, no País das Maravilhas é-nos dada a ideia de um local onde tudo é possível, extraordinário e fora do comum, o local onde podemos ser nós próprios sem sermos julgados… onde todos nós um dia gostaríamos de ir!
Em jeito de resumo desta reflexão sobre a relação de Alice consigo própria e com os outros, sobre a ideia de justiça e sobre o exercício do poder, transcrevo uma frase de Lewis Carroll que consta do livro “Alice no País das Maravilhas” que acho que serve para estes três tópicos:
“Aonde fica a saída?", Perguntou Alice ao gato que ria.
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde queres ir...”
”Depende”, respondeu o gato.
”De quê?”, replicou Alice;
”Depende de para onde queres ir...”
Mafalda Vilhais
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