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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apólogo da Morte

Vi eu um dia a Morte andar folgando
Por um campo de vivos que a não viam.
Os velhos, sem saber que o faziam,
A cada passo nela iam topando.

Na mocidade os moços confiando,
Ignorantes da Morte a não temiam.
Todos cegos, nenhuns se lhe desviam:
Ela a todos co dedo os vai contando.

Então quis disparar, e os olhos cerra:
Tirou e errou. Eu, vendo seus empregos
Tão sem ordem, bradei: Tem-te, homicida!

Voltou-se e respondeu: Tal vai de guerra!
Se vós todos andais comigo cegos,
Que esperais que convosco ande advertida?

D. Francisco Manuel de Melo

Antes da Confissão

Eu que faço? que sei? que vou buscando?
Conto, lugar ou tempo a esta fraqueza?
Tenho eu mais que acusar, por mais firmeza,
Toda a vida sem mais como nem quando?

Se cuidado, Senhor, falando, obrando,
Te ofende minha ingrata natureza,
Nascer, viver, morrer, tudo é torpeza.
Donde vou? donde venho? donde ando?

Tudo é culpa, ó bom Deus! Não ua e ua
Descubro ante os teus olhos. Toda a vida
Se conte por delito e por ofensa.

Mas que fora de nós, se esta, se algua
Fora mais que ua gota a ser medida
C’o largo mar de tua graça imensa?

D. Francisco Manuel de Melo 

À Fragilidade da Vida Humana

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse estio em vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o sol, a rosa, a primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, primavera, sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos