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sábado, 8 de outubro de 2011

A Prosa Barroca

«De uma maneira geral, as características do estilo barroco que estivemos a analisar, tanto se encontram na poesia como na prosa. De uma maneira geral – dizemos – porque, se estivermos bem atentos, veremos o cultismo usado com muito maior densidade na poesia do que na prosa. Os prosadores, salvo poucas excepções, inclinaram-se de preferência para o conceptismo, e este mesmo ainda bastante atenuado.
A prosa clássica atingiu no período barroco a maioridade. Também nela o culto da perfeição formal deixou a marca do seu dedo: a lógica articulação das palavras na frase e das frases no período, a estruturação dos períodos em paralelismos e simetrias, com um sentido apurado do ritmo, as construções em seriação crescente ou decrescente, em anáforas, em antíteses, etc.
À margem destas propriedades, a prosa barroca mostra, de quando em quando, leves matizes conceptistas: no laconismo e concisão; nas omissões das ligaduras sintácticas ordinárias; num modo de dizer abrupto e desconexo, originando um ritmo cortado, zigzagueante; no gosto pela metáfora e pelo dito sentencioso.»


António José Barreiros, História da Literatura Portuguesa

Conceptismo

Conceptismo é o desdobramento discursivo de um conceito ou de uma premissa, em que se toma como realidade uma metáfora e dela se vai discorrendo, por raciocínios engenhosos, até dar num imprevisto paradoxo. Tal qual o cultismo é a extravagância da expressão, o conceptismo é agora a extravagância da ideia. Esta, através de um raciocínio, umas vezes expresso e mais frequentemente oculto, passa de um antecedente metafórico para um consequente real.
Compreendemos melhor esta definição, depois de examinarmos três textos que vão seguir-se.
1.      «O oficial da pena, a cujos rasgos mede o regimento as regras e conta as letras, se ele quer gastar sem conta e sem medida, que há-de fazer? Troca as suas penas com as dos gaviões e minhotos, e não há ave de rapina que tanto leve nas unhas.
O letrado ou julgador cuja autoridade constava antigamente de uma mula mal pensada com sua gualdrapa preta, se hoje, fora de casa, há-de sustentar a liteira e, dentro, as alfaias que lhe correspondem, não bastando os ordenados para a terceira parte do ano, quem há-de suprir a despesa das duas outras partes, senão as partes e a justiça? (partes – litigantes). O que entre fumos de nobreza e fidalguia vive à mercê da sua herdade, a qual, quando as novidades não mentiam, só dava para sarja no verão e baeta no inverno, agora que já ás lãs não sabe o preço, de que se há-de vestir, sendo o galo da sua aldeia, senão das penas (dores) dos que podem menos?».
Este trecho, extraído de um sermão do P. António Vieira, começa por nos colocar diante do jogo de palavras (cultismo) e de um raciocínio baseado em metáforas (conceptismo).
Vejamos como joga com as metáforas e quais as conclusões a que chega, depois de raciocinar com elas.
A pena do escrivão será trocada pelas penas do gavião. A pena primeira é um instrumento de escrever; a segunda é um revestimento de ave. Como o gavião é uma ave de rapina, conclui Vieira que o escrevente, uma vez munido das penas do gavião, outra coisa não fará senão rapinar.
A seguir, joga o autor com a palavra partes. Partes, no primeiro lugar, designa uma porção de tempo; no segundo, litigante. Assim, como as partes (litigantes) sustentará partes de tempo (dois terços do ano).
Finalmente, compara o fidalgo vaidoso ao galo da aldeia. O galo tem de ter penas. Onde as há-de ir buscar o tal fidalgo, transformado em galo? Às penas dos que podem menos. Penas, no primeiro lugar, são ornamentos, cobertura de ave; no segundo, são sofrimentos.

2.      Saudades do meu bem, que noite e dia
a alma atormentais, se é vosso intento
acabardes-me a vida com tormento,
mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia,
de morrer tenho tal contentamento
que em me matando vosso sentimento
me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém, matai-me embora, que pretendo
satisfazer com mortes repetidas
o que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas,
que ao grande gosto com que as for perdendo
serão todas as mortes bem devidas.

Neste soneto, que é do Dr. António Barbosa Bacelar, temos conceptismo puro, assente num raciocínio paradoxal: a saudade mata; mas a morte por saudades dá uma alegria sempar; como, porém, a alegria ressuscita, segue-se que a saudade, ao matar o poeta, acaba por ressuscitá-lo.
Eis um argumento cheio de subtilezas que dá num aberto paradoxo.

3.      A minha bela ingrata
cabelo de ouro tem, fronte de prata,
de bronze o coração, de aço o peito;
são os olhos reluzentes,
por quem choro e suspiro
desfeito em cinza, em lágrimas desfeito,
celestial safiro;
os beiços são rubins, perlas os dentes;
a lustrosa garganta,
de mármore polido;
a mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
que tenha tal rigor tanta lindeza,
as feições milagrosas,
para igualar desdéns a formosuras,
de preciosos metais, pedras preciosas,
e de duros metais, de pedras duras?

Jerónimo Baía, neste madrigal, pretendeu dar as razões por que certa dama é bela e preciosa e, ao mesmo tempo, desdenhosa e dura. Que era dura e bela já ele o sabia, evidentemente. Mas prova-o, metaforizando os seus dotes físicos em pedras preciosas e metais duros. O cabelo é oiro, a fronte é prata, o coração é bronze, o peito é aço, os beiços são rubis, os dentes são pérolas, a garganta é mármore, etc. Depois de aceitarmos estas metáforas como realidade (cultismo), teremos de concordar que tal mulher, a ser assim, é incontestavelmente bela, valiosa e dura (conceptismo).
Nestes raciocínios assentes em metáforas a concluir para o que não era de esperar, consiste o conceptismo.
O discorrer conceptista é inteiramente artificial. A conclusão não se impõe por causa dos antecedentes; os antecedentes (sempre metafóricos) é que se ordenam para a conclusão, já existente na mente do autor.
   
António José Barreiros, História da Literatura  Portuguesa

Características do Estilo Barroco

Costumam os autores reduzir a duas as características da literatura barroca: cultismo e conceptismo. Estas características foram entre nós apontadas e exemplificadas por Rodrigues Lobo em Corte na Aldeia e, em Espanha, pelo jesuíta Baltasar Gracián (1601-1658) na obra Agudeza y Arte de Ingenio (1642).

Cultismo
 O cultismo consiste numa sobrecarga de elementos ornamentais na escrita, com dicção pomposa, superlativação e uso de metáforas, hipérboles, perífrases e de outros recursos de expressão puramente verbais, tendentes a salientar a forma, mas contribuindo muito para prejudicar a clareza e concisão de ideias. Numa palavra: é a extravagância dos vocábulos, das frases, da expressão, ou, se quisermos, a fuga à expressão linear e singela dos quinhentistas.

Jogo de palavras.
Com o ludismo de palavras pretendia o escritor barroco causar no leitor um choque à base da surpresa. Para o fazer lançava ambas as mãos à paronímia, à homofonia, aos trocadilhos, a semelhanças puramente casuais e fora de toda a lógica.
Notemos que os poetas procuram impressionar, jogando com a paronímia (Marte e morte, Castelo e Castela), com a semelhança de palavras absolutamente fortuita (bulha e Bulhão) e até com a homofonia (nós cegos e nós, cegos).

Jogo de imagens e de figuras.
O jogo de imagens constroem-no os escritores à base de metáforas acumuladas sobre metáforas, de hipérboles, de contrastes, antíteses, trocadilhos e paradoxos, de repetições e aliterações, de adjectivação encarecedora e enfática.

Jogo de construções.
Outro dos aspectos típicos do cultismo é o ludismo de construção frásica. Os poetas barrocos entretiveram-se com frequência a disporem as palavras em forma de cruzes, de pirâmides e de outras figuras geométricas, entreteceram labirintos (poesias com frases tais que admitem leitura em várias direcções), obrigaram-se a rimas impostas e motes extravagantes, brincaram com a disposição em acrósticos, etc.
No entanto, o jogo de construções mais engenhoso e frequente é a chamada alternância de construção frásica. 

António José Barreiros, História da Literatura Portuguesa