quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aos meus alunos do 12º ano

Este é o vosso último dia de aulas no Ensino Secundário, assim considerado de acordo com o calendário lectivo. Este é o último dia em que vos encontro nas circunstâncias específicas de uma sala de aula. Diz-se que estes dias são dias de despedida. É verdade. Por esse motivo, costumam ser feitos balanços e demais considerações acerca do passado. Neste caso seria de um passado comum que convosco tive o privilégio de partilhar.
Contudo, não é do nosso passado comum que me lembrei de vos falar hoje. Desse passado permanecerão as memórias que trazemos nas nossas lembranças e que a todos nós permitirão um dia convocar a nostalgia que nos alimenta nos momentos difíceis e que nos consolam em direcção ao futuro individual que cada um de nós tem pela frente.
O meu tópico final que hoje vos apresento, a alguns ao fim de seis anos, dirige-se ao futuro. A um futuro que, embora não tenha parecido muitas vezes, sempre esteve presente nas nossas aulas, até porque, num certo sentido, as pessoas de tenra idade ainda não têm passado e, apesar de viverem imersas num presente que fervilha, criando a ilusão de que apenas ele existe, só têm futuro.
De qualquer forma, como tudo aquilo que é de facto essencial, o futuro de que vos quero falar só pode fazer sentido se o conseguirmos contemplar de acordo com a nossa História, que o mesmo é dizer, de acordo com os valores da tradição cultural que nos molda e que, por sua vez, nós temos de moldar.
O tópico de que vos falo, enfim, é a Liberdade.
Ocorreu-me falar-vos de Liberdade, partindo de um autor antigo, de um dos maiores autores que a nossa civilização alguma vez conheceu: Dante Alighieri.
Não consigo conceber uma sociedade futura sem Liberdade e vocês serão os agentes que hão-de transformar essa sociedade.
A liberdade separa águas entre a cega escuridão infernal e a transparente alvorada “de um zéfiro oriental” que acolhe Dante e Virgílio no Purgatório. Esta é uma liberdade muito diferente daquela que nós, modernos, entendemos como tal. A nossa liberdade é uma liberdade política, assente no abuso de uma legislação ou de um poder opressor. É uma liberdade social, que resulta da necessidade e da desigualdade. É uma liberdade pessoal, não condicionada, resultante de uma realização pessoal de si, ou do prazer próprio. Falamos em liberdade de voto, de consciência, de opinião. É destes conceitos que falamos quando comumente falamos em liberdade. No entanto, quando falamos de Dante, a ideia de liberdade não é de uma liberdade de alguma coisa, mas sim de uma liberdade que provém de alguma coisa. Para Dante, a liberdade é o avesso da servidão. Numa carta dirigida aos seus contemporâneos, o autor da Commedia enuncia quatro verbos de coacção que delimitam com exactidão a ideia oposta à de liberdade. Os verbos são: dominar, obrigar, aprisionar, proibir. Para Dante, a liberdade resulta de um contraste e, por conseguinte, de um compromisso com o objectivo de ultrapassar a condição de escravidão.
Ao longo dos anos fomos lendo obras diversificadas. A literatura proporciona-nos a possibilidade de pensarmos e de, através das ideias que vamos construindo, desenharmos o nosso próprio destino, ou pelo menos de nos iludirmos perante a possibilidade de dominarmos o mundo, mesmo que esse mundo seja o do nosso quintal. Um quintal onde nos podemos sentir confortáveis, mas cuja ideia de permanência não está imune à vulnerabilidade dos tempos.
Há um par de anos, muitos pensariam impensável a supressão de direitos fundamentais a que hoje em dia vamos assistindo. De tal modo essa perda se tem processado de forma sistemática e precisa que, durante muito tempo, pareceu indolor. Contudo, com o tempo, e por via dessas perdas acumuladas, a nossa sociedade debilitou-se e a ideia de progresso imparável que durante muito tempo moldou o pensamento do cidadão comum, deu lugar a uma época de incertezas.
Não podemos dizer que não temos liberdade: de expressão, de voto, por exemplo. Contudo, o sentido do conceito de liberdade tem sido esvaziado. Vivemos num período histórico perigoso, movido pela necessidade. O homem que se quer livre é aquele que não vive da necessidade de satisfação das coisas básicas de vida. O homem que vive submerso na necessidade de satisfação daquilo que é básico passa a ter em risco, para além dos bens de satisfação imediatos, algo que é ainda mais importante: a sua dignidade.
O ponto a que chegámos requer pessoas informadas e capazes de conceber juízos críticos que proporcionem o restabelecimento de uma sociedade vigorosa e digna, e, por conseguinte, Livre.
Como podem observar, as notícias que vos trago não são as mais promissoras, porque implicam um trabalho árduo de restabelecimento de uma ordem nova, de um mundo novo em que os homens possam sentir-se de facto o centro das decisões mais importantes das suas vidas. Essa tarefa está destinada a ser cumprida pela vossa geração.
Desejo-vos coragem, tenacidade, teimosia na prossecução da tarefa.
O futuro está aí!

Resta-me agradecer a paciência que sempre tiveram para comigo e a forma sempre educada e gentil como me trataram ao longo destes anos em que a escola foi sempre um lugar muito agradável para mim.

Carlos Jesus

domingo, 17 de março de 2013

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois - Alberto Caeiro


XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente
E eu não sabia nada do que de mim faziam...
Mas eu não sou um carro, sou diferente
Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.

O tema central deste poema é claramente a vida.

A expressão inicial "quem me dera" seguida do subjuntivo "fosse" remete para um desejo do poeta, assim como para a sua insatisfação em relação à sua vida. Esta expressão também pode indicar que o sujeito poético tem a consciência de que a sua vontade de ser outro ou outra coisa é impossível.


  • Negação de si mesmo

Alberto Caeiro é considerado Mestre porque dentro dos heterónimos é o mais equilibrado, uma vez que é o único totalmente exterior e que percebe a singularidade das coisas devido à sua forma de ver que se caracteriza como neutra, exterior.

Neste poema, Alberto Caeiro vai contra as suas ideologias na medida em que nega a sua existência, rejeita a realidade, ao querer ser algo que não é.

Esta situação é comparável com Fernando Pessoa Ortónimo uma vez que este, no poema "Ela canta pobre ceifeira" deseja ser inconsciente, ingénuo, como a ceifeira pois essa é a única causa da sua alegria. 



  • O desejo de ser inconsciente e as sensações
Este desejo de ser inconsciente está ligado à dor de pensar e à anulação do pensamento metafísico.

Para Caeiro, a sensação é a forma de conhecimento do mundo, sendo mais importante ver e sentir do que o verdadeiro acto de pensar.
Deparamo-nos assim com um paradoxo: sensação/verdade, pensamento/mentira.
Alberto Caeiro crê que o ser humano é concebido como um ente sem dentro e sem interior, isto é, a relação do ser humano com a realidade é guiada pelo exterior, pelo factor fora, tenho como referencial o corpo.

  • Alberto Caeiro e Nietzsche
"É preciso destruir a moral para libertar a vida"

Segundo Nietzsche, a cultura ocidental está envenenada por uma certa moral que desvaloriza o mundo sensível de tudo o que é corpóreo, valorizando a razão.
Esta sobrevalorização da razão é para Nietzsche um sintoma de decadência e de falta de vitalidade.
Nietzsche considera que a razão é um instrumento que despreza tudo o que é difícil controlar, ou seja, o corpo, as emoções e os sentimentos.
Da mesma maneira, Caeiro defende que a sensação é mais importante do que a racionalidade, pois ela traduz sempre aquilo que é verdadeiro.

sexta-feira, 15 de março de 2013

"Chuva obliqua", IV parte


Em Portugal, o modernismo surgiu publicamente em 1915 com a publicação da revista “Orpheu”. De entre os grupos de vários autores plásticos que participaram no movimento, que viria a ser conhecido como “os de Orpheu”, destacam-se os nomes de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Amadeu de Souza-Cardoso. Os homens deste movimento modernista escandalizaram e assustaram os intelectuais e a sociedade da época. 
O interseccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela intersecção no poema de vários níveis simultâneos de realidade. Processo típico da pintura futurista (caraterizado por sobreposições dinâmicas), que depois se aplicou à poesia do Modernismo. O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" nº2, 1915), é talvez o exemplo mais significativo deste novo processo. Nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o atual e o pretérito, o real e o onírico, o poeta é uma alma dividida, que capta subtis correspondências de sensações.

Que pandeiretas o silencio deste quarto!...

As paredes estão na Andaluzia…

Há danças sensuais no brilho fixo da luz…

 

De repente todo o espaço pára…

Pára, escorrega, desembrulha-se….,

E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,

Abrem mãos brancas janelas secretas

E há ramos de violetas caindo

De haver uma noite de Primavera lá fora

Sobre o eu estar de olhos fechados…

 

Na quarta parte do poema, o espaço interior (o Quarto) abre-se para o mundo exterior e o silêncio é imaginariamente invadido pelas pandeiretas das danças na Andaluzia. O distante ruidoso vem interseccionar o silêncio que rodeia o poeta. É esperado que o poeta encontre neste mundo exterior o que não pode encontrar dentro de si. No quarto e no quinto verso, o sujeito poético utiliza palavras como, “Pára, escorrega, desembrulha-se”, de forma a ampliar o ser interior real que é de infelicidade, mostrando negatividade e amargura.
Enquanto a partir do sexto verso, existe uma espécie de interiorização do exterior, passa-se da pura interioridade para a admissão de dois mundos – o exterior e o interior – que comunicam através de “janelas secretas” com “ramos de violetas” e “uma noite de Primavera lá fora”. Na minha opinião o poeta tem grande dificuldade em ultrapassar o seu mundo interior, representado pelas “janelas secretas” e penetrar no mundo exterior, que é “a noite de Primavera lá fora”. Na quarta parte da Chuva Obliqua, bem como nas outras partes é possível ver-se a constante fragmentação do “eu”: ao longo do poema o sujeito poético revela-se duplo, na busca de sensações que lhe permitem antever a felicidade ansiada, mas inacessível. Mas também recria vivências que se interseccionam com outras que, por sua vez, dão origem a novas combinações de realidade/idealidade. A partir do sexto verso parece transparecer dos versos uma ideia de esperança de alcançar a felicidade entre os planos, mas é apenas uma “ideia” de esperança pois o poeta ortónimo, vive da transição de planos, e da dúvida.
A análise deste poema pode muito bem trazer-nos à ideia um quadro de pintura futurista, por exemplo, de Picasso, com todas as interações, desconexas e caóticas, de linhas e planos, “Chuva Obliqua” pode ter sido, pois, uma resposta lírica ao movimento futurista internacional, no campo da pintura, da escultura e da música, que tanto espantava e até atacava, o mundo cultural de então.

quinta-feira, 14 de março de 2013

APRESENTAÇÃO ORAL DE PORTUGUÊS - Abdicação




Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa
Diz-se que este poema é um relato exacto de como foi escrito e em que estado de espírito o autor estava quando o escreveu pois, segundo o que se sabe, Fernando Pessoa escreveu, em Fevereiro de 1913, uma carta a um amigo a contar o que se passava consigo, o que sentia e que ia escrever um poema.
Este poema de Fernando Pessoa é um soneto (14 versos) e aborda um tema bastante recorrente nos poemas de sua autoria – a noite e a solidão. No caso deste poema, a noite simboliza a solidão (que não era estranha a Pessoa pois fazia parte do seu dia-a-dia). É um poema bastante calmo devido ao sentimento que o autor tinha quando o escreveu.
O título deste poema –‘Abdicação’- está presente em todas as estrofes. Abdicar é desistir, ceder, e é algo que está presente em toda a obra. Este poema demonstra também dignidade devido ao facto de o poeta abdicar das suas coisas. Na 1ªestrofe podemos realçar os dois últimos versos –‘ Eu sou um rei que voluntariamente abandonei / O meu trono de sonhos e cansaços.’; na 2ªestrofe a presença de abdicação está nos verbos ‘entreguei’ e ‘deixei’; na 3ªestrofe podemos ter atenção no verbo ‘deixei-as’ e na 4ªestrofe são os verbos ‘despi’ e ‘regressei’ que remetem à abdicação. 

As Rosas Amo dos Jardins de Adônis

As Rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

Volucres – que tem vida curta
Inscientes- não ciente, desconhecedor

Ricardo Reis, de todos os heterónimos, era conhecido por ser neoclassicista, ou seja, acredita nos Deuses e nas presenças divinas, e neste poema é feita uma referência a dois Deuses: Adónis e Apolo.
Adónis notabilizou-se por ser um excelente caçador. Foi amado por Vénus que sofreu o enorme desgosto quando Adónis foi morto por um javali. O mito de Adónis está ligado à origem da mirra e da rosa, plantas que nasceriam de uma gota do seu sangue.
Apolo era filho de Júpiter. Tinha como principal tarefa conduzir o Sol à volta do Universo. Era considerado deus da poesia, da música e das artes.
                Neste poema está bastante presente o carpe diem epicurista, característica também muito presente de Ricardo Reis, isto é, viver o presente sem pensar do antes e no depois.
                Considero que este poema se divide em três partes:
                1ª Parte: O sujeito poético diz amar as rosas dos jardins de Adónis
                2ª Parte: O sujeito poético explica a razão pela qual afirma amar essas mesmas rosas, sendo porque a luz para elas é eterna, visto nascerem ao nascer do Sol e morrerem antes do Sol de pôr.
                3ªParte: É uma parte mais apelativa onde o sujeito poético pede a Lídia que faça qualquer coisa, neste caso, pede que ela viva com ele o instante. É feita também uma transposição do que acontece às rosas para a sua vida.
                Nas três partes há uma sequencia lógica na medida em que a a 1ª e a 2ª parte estão ligadas como justificação e a 3ª é uma transposição do que acontece na Natureza para a vida de ambos.
                Também há uma inversão da ordem Natural neste poema, onde o sujeito poético ao escrever «Essas volucres amo, Lídia, rosas, Que em o dia em que nascem, Em esse dia morrem.» significa: Lídia, eu amo essas volucres rosas, que no mesmo dia que nascem, morrem.

Seguro assento na coluna firme [1]

Seguro assento na coluna firme
                Dos versos em que fico,
Nem temo o influxo inúmero futuro
                Dos tempos e do olvido;
Que a mente, quando, fixa, em si contempla
                Os reflexos do mundo,
Deles se plasma torna, e à arte o mundo
                Cria, que não a mente.
Assim na placa o externo instante grava
                Seu ser, durando nela

                Neste poema está igualmente presente o carpe diem, e o poema rege-se novamente por ele.
O sujeito poético cria, neste poema, uma ideia de não ter medo do tempo ou do esquecimento, uma vez que o instante vivido, e a sua essência ficarão sempre gravados nos seus poemas, como é visível nos versos 3 e 4 – 9 e 10, assim ele não tem medo de morrer pois é como se continuasse a viver através deles.
A mente cria o reflexo do mundo e torna-o em arte, como os poemas, e esta arte grava os instantes externos do mundo.
                 

Paúis- Fernando Pessoa (apresentação oral- conteúdo)


Paúis

Paúis de roçarem ânsias pela minh' alma em ouro...
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-se a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se.
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta - a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto.... Dia chão...
Trepadeiras de despropósitos lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de ferro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!




Análise Pessoal:
A "Hora" a que o sujeito poético se refere é como que uma personificação do tempo presente, do que aflige o poeta, como se fosse a sua própria prisão.
O poeta sente-se encarcerado no presente, que acabar por se tornar um prisioneiro de si mesmo. "Tão sempre a mesma hora" é equivalente a: sempre esta a minha angústia!
Quando o poeta afirma que "a Hora expulsa de si tempo", podemos interpretar que o tempo vai passando; mas acrescenta logo que isso é apenas como uma "onda de recuo que invade o seu abandonar-se a si próprio até desfalecer". Ou seja, o tempo pode passar mas a situação angustiosa do poeta (a sua “Hora”) permanece presente. Daí, "um mudo grito de ânsia põe garras na Hora", que demonstra a angústia pela permanência da sua Hora.
Os vários tempos (o passado, o futuro e o presente) estão bem marcados no poema. Referem-se ao passado: "dobre longínquo de outros Sinos", "Ó tão antiguidade", "onda de recuo que invade o meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer". Sendo que esta última expressão pode acabar por nos remeter para a ideia que as memórias dos tempos passados também servem para alimentar a angústia do presente.
Referem-se ao futuro: "Estendo as mãos para além", "Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns", "...silêncios futuros...", "Longes trens...", "Portões vistos de longe... tão de ferro!" Com estas expressões sobre o futuro podemos compreender que o futuro também não traz uma noção de ‘descanso’ ao poeta, pois sente que o futuro está longe e barrado por portões de ferro. Podemos então entender que o poeta é não só um prisioneiro do espaço (pelos portões de ferro) mas também do tempo (pela impossibilidade do futuro).
O fulcro da angústia situa-se no presente, na Hora. Isto porque por mais que o poeta tente pensar no passado ou no futuro para se confortar ou ambicionar algo melhor, este continua carregado de desilusões. Este pode ser um indicador do porquê da letra maiúscula da Hora, esta é o presente que sintetiza o passado e o futuro.
Podemos então interpretar como uma das razões da angústia do poeta a sua fragmentação do Eu. Ou seja este sente-se dividido entre vários tempos e até entre vários espaços, nunca conseguindo encontrar a unificação.
É ainda importante realçar o facto de que tudo o que está contido neste poema não é uma espécie de lamentação do sujeito poético, mas antes apenas uma descrição do seu estado fragmentado.


Andreia Rosa, nº2 12ºE

sábado, 5 de janeiro de 2013

Poema "Conselho"


“Conselho” é um poema de Fernando Pessoa, publicado no mesmo mês que este falecera, pensando-se ser o seu último poema. É um poema que faz parte da poesia do ortónimo.

A poesia do ortónimo é uma tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta. Pessoa recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo inteligível, platónico, aquele a que ele não tem acesso, pela sensação de inquietação que sente face às suas perceções. Esta inquietação dá origem a uma poesia abrangente a várias tendências que vão desde a nostalgia dum bem perdido (infância) até ao interseccionismo impressionista. Uma das principais características do poeta ortónimo é a dor de pensar, expressa em tensões e dicotomias que espalham a sua complexidade interior.

É na escrita ortónimo, mais facilitada e abreviada, que aparecem os temas mais estranhos e misteriosos bem como a presença de temas como Pensar/Sentir; Sinceridade/Fingimento e Consciência/Inconsciência, é este último tema que o poema “conselho” vai dar mais importância.

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

A primeira estrofe do poema, dá-nos claramente a ideia de inconsciência/interioridade e de consciência/exterioridade. O autor utiliza os sonhos para representar o nosso inconsciente, visto que é neste que eles se formam e são exclusivamente nossos, desta forma ele diz que devemos cercar o nosso interior de grandes murros, de modo a proteger os nossos sonhos, bem como os nossos pensamentos e nunca os revelar. Por outro lado, Pessoa utiliza as flores para representar o consciente, sendo flores algo bonito que toda a gente aprecia, o autor diz que devemos mostrar o nosso exterior, revelar aos mais próximos de nós quem realmente somos. As “flores risonhas”, representam as qualidades que devemos expor para os outros. Nesta estrofe, é também visível a preferência do autor, ao seu interior, ao seu “sonho de si próprio” do que ao exterior.

Faz canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
É deixa as ervas naturais medrar.

A segunda estrofe reforça a ideia iniciada por Fernando Pessoa na primeira estrofe, nos três primeiros versos, Pessoa diz que devemo-nos misturar com a multidão, que devemos seguir a corrente, “Faz canteiros como os que outros têm”, é nossa obrigação plantar flores nos nossos jardins, tal como os outros fazem. Os três últimos versos dizem exatamente o contrário em relação ai interior/inconsciente. O “onde és teu”, é um lugar qua apenas nós devemos aceder e é nosso dever recalcar os sonhos e pensamentos mais íntimos, para que ninguém se aperceba da sua existência. É nesse local que tudo pode crescer livre, ou seja, que os sonhos podem crescer e se realizar.

Faz de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês…

Por fim a ultima estrofe, que revela estes dois mundos, o exterior e o interior, sendo indispensáveis um ao outro. “Faz de ti um duplo guardado”, cada um tem de atuar como um agente secreto, onde a sua missão é utilizar um disfarce para proteger a sua verdadeira identidade, o seu verdadeiro “eu”. Enquanto o exterior serve-se de uma aparência, indispensável para o quotidiano, é no interior onde o céu não é o limite, onde crescem sonhos e pensamentos, como se lhe dessemos adobo, mas que nunca podem ser revelados, pois se estes pensamentos saíssem para o exterior, seria como ver crescer ervas doninhas, no meio de jardins perfeitos cheios de flores harmoniosas.

Depois de analisar-mos o poema, verso a verso, é fácil entender a escolha de Fernando Pessoa, quanto ao título, este poema serve como um conselho por parte do autor, após tantos anos de vida, Pessoa, queria deixar a sua opinião do funcionamento do mundo. Assim, na minha opinião este poema, serve como uma chave para toda a leitura de Fernando Pessoa, sendo como uma introspeção que o autor faz a si próprio no fim da sua vida, parecendo até que adivinhava que se avizinhava a sua morte.

Maria Carmo

 

 

 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Análise dos poemas “António Vieira” e “Screvo o meu livro à beira-mágoa”



 “António Vieira”

Neste poema, Fernando Pessoa qualifica António Vieira como o maior orador do seu tempo, notável estilista da prosa portuguesa como se denota no verso “ imperador da língua portuguesa”.
Quando Pessoa diz “surge, prenúncio claro do luar, El-rei D.Sebastião” refere-se aos escritos do Padre António Vieira referente às esperanças de Portugal que um grande rei conduziria a um futuro Quinto Império Mundo. Baseia-se também nas profecias de Bandarra que anunciava o regresso do rei D.Sebastião.
Pessoa tem um momento em que afirma “foi-nos um céu também”, ou seja, designa António Vieira como um céu estrelado dos portugueses, grandioso, trazendo assim, grandiosidade à Língua Portuguesa.
No verso “Mas não, não é luar: é luz do etéreo”, o poeta diz que não é o luar, ou seja, o final do dia, referindo-se ao Império Material das Índias mas a luz celeste, o começo de um novo dia, um Império Espiritual, o Quinto Império.



“Screvo o meu livro à beira-mágoa”

Este é um poema sebastianista. Neste, o poeta, na sua mágoa, preenche os dias refugiando-se no mito de um Salvador que há-de vir redimi-lo e realizar o sonho português de há muitas eras. Embora ciente da sua existência apenas do sentir e pensar, arremete-o a dúvida de quando será a sua vinda.
Este poema divide-se em duas partes:
A primeira resume-se aos primeiros seis versos. O poeta fala da sua tristeza e da sua única consolação – a crença de um “Senhor” que é a única entidade capaz de lhe devolver a confiança no futuro e preencher os seus “dias vácuos”.
Já a segunda parte é constituída por várias perguntas introduzidas por “Quando” e dirigidas a uma entidade mítica (Rei, Senhor, Hora, Cristo, Encoberto, Sonho), invocando a sua vinda rápida, sendo esta a única maneira de materializar os sonhos centenários e de o poeta se libertar do contingente, do incerto e de alcançar “Novas Terras” e “Novos Céus”.


Rita Cruz, Nº26, 12ºE

sábado, 1 de dezembro de 2012

V - O TIMBRE

A Cabeça do Grifo/ O Infante D.Henrique

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

O poema tem como título, A Cabeça do Grifo - O Infante D.Henrique, este animal é um simbolo da condição de herói, assim, pudemos então concluir que o poeta considera o Infante como um herói.
O Infante D.Henrique era filho de D.João I e da rainha D.Filipa de Lencastre e foi um importante navegador da história de Portugal, tendo os seus marinheiros descoberto os Açores e a Madeira.
Este poema quanto à sua estrutura externa caracteriza-se por ter uma rima cruzada, emparelhada e interpolada.

"Com seu manto de noite e solidão"
O Infante D.Henrique encontra-se sozinho e era durante a noite que este gostava de desenhar os seus planos de descoberta.

"Tem aos pés o mar novo e as mortas eras"
O Infante tem aos seus pés o mar acabado de descobrir e a Idade das Trevas, "...mortas eras", acabou, devido ao avanço do conhecimento científico.

"O único imperador que tem, deveras"
Ele é "o único imperador" que tem o mundo nas suas mãos.

"O globo mundo em sua mão"
Apenas ele tem o conhecimento das terras descobertas e das que estão ainda por descobrir.


Uma Asa do Grifo/ D.João O Segundo

Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra -
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.

Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu,
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

O Grifo pode também ser um símbolo do conhecido e do desconhecido, o que se pode aplicar a D.João II por ter ido além do que se conhecia na altura.
A cabeça do grifo é referente ao Infante D.Henrique, no entanto para as suas ideias/sonhos se realizarem, era necessário alguém que lhes desse continuidade, ou seja, eram precisas asas, sendo uma destas, D. João II, que assumiu a direcção da expansão marítima e teve o plano de dobrar o Cabo da Boa Esperança, de forma a obter a rota marítima para a Índia.
Nos Lusíadas, encontram-se algumas referências a este rei no canto V e VIII, mas não lhe é dada muita importância, porque simplesmente pôs em prática aquilo que outros, como o Infante D.Henrique, já tinham pensado, sendo dessa forma mais fácil seguir as suas "pegadas".

Na 1ªestrofe é destacado o poder da vontade, como é exemplo logo no primeiro verso, "Braços cruzados, fita além do mar", que quer dizer que D.João II não está a usar a força, mas sim a vontade para encontrar o caminho marítimo para a Índia.
"Promontório"
É o limite referido nos dois últimos versos, "O limite da terra a dominar/O mar que possa haver além da terra" e que ele próprio o tenta exapndir.

2ª Estrofe
"formidável vulto solitário"
É um elogio de Pessoa, a todos os heróis solitários de Portugal, pois são estes que lutam a favor de Portugal.
Os últimos três versos referem-se ao facto de, D.João II ter ido à descoberta por mares nunca antes navegados e terras que eram também desconhecidas. O que faz com que o mundo tenha medo que este rei, devido à sua vontade descubra os mistérios deste, "E parece temer o mundo vário/Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu."




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mensagem


PRIMEIRA PARTE: BRASÃO
Bellum sine bello.

V. O TIMBRE
A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUEROUE

De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.

            Afonso de Albuquerque nasceu em 1453 e faleceu em 1515. Foi um fidalgo, militar e o segundo governador da Índia portuguesa cujas acções militares e políticas foram determinantes para o estabelecimento do império português no Oceano Índico. Pouco antes da sua morte foi agraciado com o título de vice-rei e "Duque de Goa" pelo Rei D. Manuel I, que nunca usufruiu, no que foi o primeiro português a receber um título de além-mar e o primeiro duque nascido fora da família real. Foi o segundo europeu a fundar uma cidade na Ásia, o primeiro foi Alexandre, O Grande.
            O poema centra-se no desempenho de Afonso de Albuquerque na Ásia, por contrapartida com o seu descrédito na corte de Lisboa motivado por invejas.

"tão poderoso que não quer o quanto pode, que o querer tanto calcara mais do que o mundo sob o seu passo"
Albuquerque podia até ter-se proclamado imperador, mas sempre foi súbdito fiel do Rei D.Manuel. Não queria o quanto podia porque o seu sucesso lhe pesava mais sobre os ombros (por ter perdido o favor real) do que a conquista pesara aos povos submetidos.

"três impérios lhe a Sorte apanha"
Refere-se às conquistas de Goa (na Índia), Malaca (na Malásia) e Ormuz, no Golfo Pérsico.

"apanha-os como quem desdenha"
Submete-os como se isso fosse coisa de pouca monta.

SEGUNDA PARTE: MAR PORTUGUEZ
Possessio maris.
I. O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

"Foste desvendando a espuma e a orla branca foi de ilha em continente..."
A espuma das ondas que acabam nas praias ou rebentam contra os rochedos marca as costas com uma orla branca. A frase anterior é uma forma poética de dizer que as costas foram sendo descobertas, primeiro as ilhas e depois os continentes, "até ao fim do mundo".

"Quem te sagrou criou-te português"
Porque, segundo Fernando Pessoa, Deus fadou Portugal para um magno destino e o Infante foi, por assim dizer, parte do "puzzle".

"Do mar e nós, em ti nos deu sinal"
Através de ti revelou-nos que o nosso destino era o Mar.

"Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez...falta cumprir-se Portugal"
Cumpriu-se o destinado: o Mar foi desvendado; o Império Português (isto é, o controle das rotas oceânicas e a hegemonia no Índico) desfez-se. Pessoa pensa que Portugal está destinado à grandeza futura, e isso ainda não se cumpriu!



Poemas “Ocidente” e “Fernão de Magalhães” da Mensagem de Fernando Pessoa
Análise dos poemas
Ocidente
Este poema de Fernando Pessoa descreve a descoberta das terras do ocidente, mais concretamente a descoberta do Brasil.
Na primeira estrofe é possível analisarmos a referência do corpo e da alma deste acontecimento, tal como se vai assistindo ao longo do poema.
“Acto e Destino” são, segundo Fernando Pessoa, as duas mãos que fizeram a descoberta destas novas terras. No meu ver, o Acto refere-se à acção dos portugueses, à coragem e à bravura dos mesmos. O Destino remete-me para a força e a vontade de Deus para a descoberta de novas terras, e a protecção divina relativamente aos portugueses, para que a descoberta se pudesse concretizar (Protecção divina, tal como nos Lusíadas). Assim, interpreto que a obra dos portugueses foi a corporização da vontade de Deus.
Ainda na primeira estrofe, assistimos à referência de um facho, segurado por uma mão, que aponta para as terras desvendadas. O facho ilumina as terras desvendadas, focando o descoberto, o novo. Pode também simbolizar o Divino. A outra mão afasta o véu que escondia aquelas ilhas, simbolizando a descoberta do desconhecido, e a destruição da dúvida relativamente à existência de terras no ocidente.
Na segunda estrofe sugere o acto da descoberta. “A mão que ao Ocidente o véu rasgou”, isto é, o ocidente foi “destapado”, passou de desconhecido a conhecido.
Nesta estrofe Fernando pessoa volta a identificar o corpo e a alma deste feito, sendo desta vez a Ciência a alma e a Ousadia o corpo. Assim, a ciência, ou seja, todo o saber e o conhecimento dos navegadores portugueses simbolizam a alma da descoberta. Por outro lado, a Ousadia, a bravura e determinação dos portugueses simbolizam o corpo da mesma.
Na Terceira e última estrofe, o poeta afirma “Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal (…) Foi Deus a alma e o corpo Portugal”. Isto é, quer esta descoberta se tenho dado por puro acaso, por vontade e determinação dos portugueses, ou por um temporal que tenha desviado os navios em direcção àquelas terras, Deus foi a alma, a vontade da realização desta descoberta. E os portugueses foram os heróis, os destemidos que a realizaram, e que deste modo descobriram o Brasil.

Fernão de Magalhães
Fernão de Magalhães foi um navegador português. Este iniciou uma circum-navegação. Passou pelo estreito, hoje conhecido como Estreito de Magalhães, onde perdurou durante algum tempo. Navegou pelo Oceano Pacifico, e durante toda a viagem perdeu uma boa parte da sua tripulação, assistiu a revoltas dos marinheiros, a naufrágios de três dos seus navios. Passou por fome, sede, e doenças como o escorbuto. Quando chegou às Filipinas- Cebu- Fernão de Magalhães iniciou trocas comerciais e foi muito bem recebido e acolhido pelo chefe local.
Este por sua vez, andava em guerra com o chefe local de Mactan, e foi ao ajudá-lo numa batalha que Fernão de Magalhães perdeu a vida.
Este poema, de Fernando Pessoa, incide não nos feitos propriamente ditos de Fernão de Magalhães, mas sim na sua morte.
Para entendermos melhor este poema, é necessário saber que os assassinos de Magalhães foram os Nativos de Mactan, durante uma batalha.
Na primeira estrofe do poema, podemos concretizar a ideia de um ritual, feito pelos nativos, festejando a morte do marinheiro. As referências à “Fogueira” e à “Dança” destes nativos, remeteram-me para a presença dos nativos e a festa realizada pelos mesmos, respectivamente.
Esta primeira estrofe é bastante descritiva, apresentando uma caracterização de todo o ritual e festejo dos nativos, e do local onde se passa o ritual (um vale).
Na segunda estrofe Fernando Pessoa refere-se aos nativos como “Titãs”. Estes eram seres míticos, considerados selvagens. Refere-se novamente à dança, e ao ritual em “honra” da morte de um marinheiro que merecia ser glorificado!
Nesta estrofe, Fernão de Magalhães é caracterizado como o “Primeiros” dos homens, que se cingia, protegia e pretendia ser leal àquele que o acolheu naquelas terras (Cebu). Fernão de Magalhães é situado no último verso, “Na praia, ao longe, sepultado”.
Na terceira estrofe, volta-se a fazer referência ao festejo após a morte de Fernão de Magalhães, por parte dos nativos que o assassinaram. Desta vez, Fernando Pessoa, despreza os nativos.
“Nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada”
Assim, a força e bravura deste marinheiro influenciou o espirito de toda a armada. Este destemido marinheiro ficou na memória de todos. O seu espirito nobre e heróico, os seus grandes feitos ficou para a história. Os nativos, ignorantes, não reconhecem estes feitos e festejam como se nada fosse.
Na quarta e última estrofe é afirmado por Fernando Pessoa que Fernão Magalhães “Violou a Terra”, ou seja, encheu-se de conhecimento de todo o mundo. Com a sua bravura, determinação e coragem rompeu todas as barreiras.
Aqui, Fernando Pessoa volta a desprezar os nativos. Determina-os como ignorantes, que não reconhecem a importância dos feitos de Fernão de Magalhães.
“Dançam na solidão” – estão sós, presos à ignorância, não têm saber. E dançam, festejando.
Por último, é feita uma referência aos “Mudos montes” que rodeiam estes nativos. Aqui, podemos interpretar “mudos montes”, como a falta de sabedoria e a ignorância que rodeia os nativos. Estes estão rodeados de nada. E por isto, festejam.

Mariana Dinis, 17

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

D. Afonso Henriques / D. Dinis


QUINTO/ D. AFONSO HENRIQUES

Pai, foste cavaleiro,
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

Neste podemos observar a descrição de D. Afonso Henriques e dos seus grandes feitos.
Na 1º estrofe, D. Afonso Henriques é chamado de ‘Pai’, remetendo-se para o sentido de D. Afonso Henriques ter conquistado o condado portucalense na batalha de Ourique, disputada com o rei de Castelo. D. Afonso Henriques é caracterizado como o pai de Portugal, sendo o responsável pela sua independência e pela liberdade dos portugueses. A palavra ‘cavaleiro’ utilizada para o descrever, remete-nos para os valores de coragem e honra que D. Afonso Henriques possuía.
Observa-mos também nesta estrofe, um vocativo. Na sua vigília (oração em que esperam por algo), os portugueses apelam para que D. Afonso Henriques lhes dê força e o exemplo.

Na 2º estrofe podemos observar novamente um vocativo por parte do povo português, apelando pela sua bênção como uma arma/ força, e a espada como coragem.

Podemos relacionar este poema com o poema anterior D. Tareja, na medida em que possuem um discurso vocativo semelhante.
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SEXTO / D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Neste poema é nos apresentado as características e grandes feitos de D.Dinis.
Na 1º estrofe é nos apresentado o seu culto pela escrita e pela cultura (1º verso).
É também remetida a relação com o seu cognome ‘lavrador’ pois foi este que plantou o pinhal de Leiria que deu a madeira necessária à criação das naus que foram usadas para os descobrimentos, podemos observar neste exemplo a capacidade visionária de D. Dinis.
Nesta estrofe aparece também a ideia de profetização (verso 3). A expressão de ‘ouve um silêncio múrmuro consigo’ corresponde ao som as ondas que D. Dinis escuta, profetizando os descobrimentos.

Na 2º estrofe, D. Dinis é descrito como um arroio, um pequeno e jovem rio numa nova e jovem nação.
De novo está presente a ideia do futuro e do destino dos portugueses. No último verso, podemos observar a ideia dos heróis portugueses ansiando pelo mar, pelas descobertas e pela sua glória.
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Relação com os Lusíadas:
D. Dinis nos Lusíadas é descrito como um homem mais ‘terreno’ procurando o desenvolvimento do seu país , através de obras públicas.
Pelo contrário, na Mensagem, é observada uma mitificação de D. Dinis como um profeta que espera e prevê o glorioso futuro do povo português.

domingo, 25 de novembro de 2012

Mensagem


A obra de Fernando Pessoa está dividida em duas partes. Na primeira divisão constam poemas que respeitam à morfologia de Portugal e à história da sua primeira dinastia. Na segunda, chamada “O Mar Português”, estão contidas considerações acerca da bravura dos navegadores portugueses que com curiosidade exploram o mar. Procede-se à exaltação dos feitos heróicos dos navegadores corajosos que são celebrados, não individualmente, mas como uma pátria que através da transcendência se pôde imortalizar.

O Mostrengo

Quanto à estrutura formal do poema, pode constatar-se que é constituído por três estrofes, cada uma delas com nove versos. Estes são compostos segundo o esquema rimático aabaacdcd.
O assunto abordado é a chegada ao Cabo das Tormentas. Este cabo, à época nunca ultrapassado, é afamado pelo perigo que lhe é inerente. As histórias largamente difundidas, que constituíam lendas populares acerca de monstros devoradores de naus, faziam com que este cabo se encontrasse envolto num misto de enigma e assombro. Quando os portugueses aí chegam, no sul de África, uma personificação desse terror surge com o Mostrengo correspondente ao Adamastor em Os Lusíadas (Canto V;37-60)
Embora em Os Lusíadas se comprove uma descrição mais detalhada deste monstro, na obra da Mensagem é possível apreender que o Mostrengo é igualmente assustador. Os eventos nas duas obras são semelhantes; o Mostrengo e o adamastor rodeiam as naus sendo olhados com desconfiança e temor. A insistência na interrogação, por parte do mesmo que sente invadidas as águas da sua posse, tentando perceber a mando de quem é que aquelas naus ali se encontram, e a repetida afirmação do nome de D. João II serve para demonstrar o carácter heróico dos portugueses que, apesar de aterrorizados, respondem assertivamente ao enfrentar o Mostrengo. O homem que vai ao leme e que responde assume uma dimensão heróica, não só individual, mas também colectiva já que representa uma inteira pátria com um objectivo a atingir. Esta ideia poderá ser confirmada através da leitura da terceira estrofe; aqui presente a vontade de possuir o mar.
A introdução da figura do Mostrengo tão horrível e corpulento tem como finalidade realçar a condição humana que é tão frágil, mas que ao mesmo tempo tão poderosa. Por um lado, está sujeita a estas ameaças, mas por outro, o ultrapassar dessas dificuldades concede um estatuto mítico a quem por elas passa. Este poema confirma o facto de os portugueses terem enfrentado vicissitudes ao longo das suas viagens e a coragem com que contra elas lutam.

Epitáfio de Bartolomeu Dias

Este poema, constituído por uma estrofe cujos versos seguem um esquema rimático de abab, consiste na dedicação de algumas palavras de homenagem a Bartolomeu Dias. Fernando Pessoa sugere um epitáfio; poema, citação, ou pequeno texto, que se grava nos túmulos das pessoas falecidas. Logo na primeira estrofe é feita uma referência à localização geográfica de Portugal: “pequena praia extrema”. Seguidamente existe uma referência à passagem do Cabo das Tormentas que ocorreu sob o comando de Bartolomeu Dias, o Capitão do Fim. Quando este cabo é ultrapassado, as dúvidas que pairavam sobre a exequibilidade deste feito desapareceram. O autor faz ainda uma referência a Atlas, personagem mítica, um titã cujo castigo seria carregar a esfera celeste aos seus ombros. Em Mensagem, Atlas suporta, em vez dos céus, o Mundo e com esta alteração pretende-se afirmar a esfericidade da Terra de que, ainda no século XV, se duvidava.

Analise dos poemas “o Infante” e “ Horizonte”

O “Infante” é o primeiro poema da segunda parte de Mensagem, este poema funciona como uma semente do que se seguirá. Este poema é dividido em três partes, a primeira remete apenas para o primeiro verso da primeira estrofe.
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” Neste verso, esta contido o conceito de homem. O simbolo do Homem universal, que realiza o sonho por vontade divina: ele reune todos as qualidades, virtudes e valores para ser o intermediario entre os homens e Deus. Este conceito também esta na mesma linha do conceito descrito por Camões nos Lusiadas, onde os homens honrosos alçancaram a imortalidade, pelo seu esforço e sofrimento.
A segunda parte do poema, vai desde o segundo verso da 1ª estrofe até ao fim da 2ª. D
Nesta é nós apresentado a vontade de Deus, o seu desejo e unir toda terra pelo mar, confiando essa misssão ao Infante,_”Sagrou-te, e foste desvendando a espuma”. O verso reforça a ideia de Infante D. Henrique como o herói mítico, aquele que Deus manipula quase como uma marioneta, o que obedece as suas ordens, cumprindo a missão que lhe é destinada, que consistia em desvendar os mares_”Que o mar unisse”_ e descobrir que a terra era redonda, _”E viu-se a terra inteira, de repente. Surgir redonda, do azul profundo”.
Na última parte do poema esta contida na última estrofe. Os dois ultimos versos do poema oscilam entre e euforia da constatação da grandeza do passado _ “cumpriu-se o Mar”_, o desencanto do presente _ “e o imperio se desfez”_ e o apelo à construção de um Portugal novo, numa já clara alusão ao mito do quinto Imperio_”Senhor, falta cumprir-se Portugal”. Este Imperio é de natureza espiritual e sera construido por homens purificados, ou seja, homens honrosos que Deus escolhe pelas suas grandezas e virtudes.

O Horizonte:

O poema “Horizonte” inicia-se com uma apóstrofe que evoca um mar anterior ao Portugal das descobertas. Partindo desde pressuposto, Pessoa sublinha, o contraste entre o mar desconhecido e assustador _”anterior a nós”_ onde “noite”, “cerração” e “misterio” têm uma conotação negativa e o mar novo, onde “coral”, “praias” e “arvoredos” têm uma conotação positiva. Nos dois ultimos versos da primeira estrofe há uma referência à beleza e o fascionio da conquista do “Longe” e ao valor oculto dos versos_ “o sul sidério/ Splendia sobre as naus de iniciação”, em que as viagens das descobertas não são apenas maritimas, mas viagens iniciativas, de demanda de um conhecimento superior.
Na segunda estrofe há uma descoberta progressiva e gradual do Longe: “ se aproxima”, “ergue-se”, “Mais perto, abre-se”, “no desenbarcar. há”. Fernando Pessoa sublinha que o abstrato concretiza-se em “encosta”, “arvores”, “sons e cores”, “aves, flores”, tudo o que foi descoberto.
Na ultima estrofe, é apresentada uma definição de o “sonho”. O Sonho é procurar alcançar o que esta mais além, é o esforço para chegar mais longe. Animado da “esp´ranca e da vontade”, conduz à conquista da “ Verdade” (a maiúscula reforça o absoluto da verdade etapa última de qualquer demanda). Visto que o sonho é aceder à
verdade, sendo que esta constitui o premio de quem por ela se esforça. O premio, a recompensa, refere-se aos “beijos merecidos” que esta relacionada com a Ilha dos Amores na epopeia camoniana. Onde esta ilha reprezenta o premio para aqueles homens honrosos que arriscaram a sua vida por um bem maior, os descobrimentos. Neste sentido a verdade é a recompensa dos Homens na Mensagem de Fernando Pessoa.

Maria Carmo